Às vezes quando menos se espera a paixão chega e toma conta da vida de uma pessoa. O coração bate mais forte e o sorriso aflora no rosto. É uma fase de descobertas e êxtase, mas é preciso ter cuidado. Em alguns casos, a paixão se transforma em uma grande obsessão e pode culminar em violência e até em morte.
É o caso da advogada Mércia Nakashima, que foi morta no dia 23 de maio, tendo o corpo encontrado somente no dia 11 de julho, na represa de Nazaré Paulista, próxima de São Paulo. O principal suspeito é Mizael Bispo, ex-namorado da vítima. ''Existe uma linha muito tênue entre paixão, obsessão e vício'', explica a médica fisiologista Cibele Fabichak.
Em entrevista à FOLHA, ela afirma que os circuitos neurológicos e hormonais ativados quando estamos apaixonados são os mesmos quando se faz usa da cocaína. ''Por isso algumas reações se tornam exageradas'', diz.
O que acontece com o corpo quando a pessoa se apaixona?
Na paixão o cérebro determina a alteração de uma série de substâncias e hormônios que geram um estado fisiológico próprio. As principais características dessa fase são: euforia, focalização no ser apaixonado, dependência emocional, obsessão pelo outro, busca pela satisfação sexual, saudade intensa em um curto espaço de tempo. Além disso, existem os sintomas físicos. O coração bate mais forte, a respiração fica mais ofegante, a pupila se dilata, aumentam os níveis de glicose no sangue, a pele do rosto fica avermelhada e o sorriso fica meio ''bobo''.
A paixão funciona de maneira similar a uma droga?
Sim. As últimas pesquisas indicam que os mesmos circuitos neurológicos e hormonais que são utilizados, por exemplo, pela cocaína, são usados durante a paixão. Pelo fato de o circuito ser o mesmo, as reações de alguns indivíduos podem se tornar exageradas. Aí a paixão deixa de ser boa e se transforma em algo ruim e perigoso.
Nós não temos controle por quem vamos nos apaixonar. Porém, a partir do momento que o indivíduo identifica que está apaixonado, ele tem o poder de controlar, pelo menos em partes, esse sentimento, por meio da autorreflexão.
Mas em muitos casos a pessoa apaixonada não consegue tem um pensamento crítico e racional.
Além dos efeitos já citados, a paixão também é responsável pela desativação no cérebro de algumas áreas que são importantes para o julgamento crítico. Isso já está comprovado. Enquanto áreas do prazer são ativadas, desativa-se regiões que trabalham a racionalidade.
O que explica uma pessoa matar por amor? É uma doença?
Essa é uma questão muito discutida: até que ponto trata-se de uma paixão saudável e quando se chega a psicopatia? Existe uma linha muito tênue entre paixão, obsessão e vício. Os estudos nessa área têm avançado e mostram que em alguns indivíduos o amor se torna realmente uma obsessão. É um amor patológico. Quando há um exagero, chegando a violência e até a morte, pode se tratar de uma doença psiquiátrica, um transtorno obsessivo.
E como perceber que a paixão está passando dos limites e se tornando obsessiva?
Por exemplo, quando uma pessoa abandona os seus antigos interesses profissionais e pessoais, focalizando-se somente na paixão. Ou quando o indivíduo se preocupa e se dedica de forma exagerada pelo outro, gastando muito tempo e energia no monitoramento do parceiro(a). Nesses casos, é aconselhado buscar ajuda psicoterápica.
É aconselhável esperar a fase da paixão passar para dar passos importantes no relacionamento como casar ou ter um filho?
Como a paixão é um estado fisiológico em que acontecem muitas alterações hormonais que distorcem os sentimentos, o ideal é não tomar grandes atitudes no primeiro e no segundo ano de namoro.

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