Cuba sob o olhar de turistas
PUBLICAÇÃO
domingo, 23 de fevereiro de 2014
Telma Gimenez e Paloma Gimenez 
Em recente visita a Cuba pudemos observar, ainda que superficialmente, as mudanças em curso naquele país. O período atual, chamado de "atualização" da revolução socialista, cede ao empreendedorismo, abalando alguns dogmas anteriores sobre propriedade privada. Com carros novos nas ruas, a ampliação de oferta de "paladares" (ou restaurantes privados) e quartos alugados com autorização oficial, Havana aposta no turismo como forma de gerar as necessárias divisas.
Como turistas, nossa visão é limitada, assim como são equivocadas muitas opiniões sobre a ilha caribenha. Sem a oportunidade de vivência mais aprofundada na realidade cubana, ficamos com as superfícies, aquilo que nos é possibilitado ver e ouvir. É claro que essas percepções parciais são também direcionadas por nossas posições ideológicas. Talvez, nenhum outro país provoque tanta curiosidade e se queira tanto saber as impressões dos viajantes do que este. Corremos o risco de, se falarmos bem, sermos consideradas de esquerda, petistas ou comunistas. Se dizemos que se trata da prova cabal do "fracasso do socialismo" poderemos ser tachadas de direita, especialmente na ausência de ressalva sobre o prolongado embargo dos Estados Unidos. Assim, o turista que visita essa ilha apaixonante se vê na difícil tarefa de contar sobre sua experiência procurando ser "o mais objetivo possível", tomando fatos (e fotos) como referência.
Passamos por duas experiências distintas: nos hospedamos (em Havana e Varadero) em hotéis sofisticados, planejados para fazer o turista canadense ou europeu não sentir que "saiu de casa". Da arquitetura, à alimentação, dentro desses hotéis pode-se manter isolado da população local. Optamos por também conhecer como vivem os cubanos, hospedando-nos em uma casa particular em ambas as cidades. Além do custo e conforto bem menores, com essa escolha pudemos conhecer um pouco melhor o que pensam os cubanos que, no dia a dia, buscam a sobrevivência em condições adversas. Nada muito diferente do que vivenciaríamos se nos hospedássemos na periferia das cidades brasileiras. Apesar do enfrentamento diário da escassez (especialmente de alimentos), os cubanos parecem reconhecer avanços o analfabetismo foi erradicado (dados da própria CIA), a educação e a saúde são gratuitas e Cuba ostenta uma das maiores taxas de longevidade do continente. Vale lembrar que, em 2012, Cuba teve IDH superior ao do Brasil ficou em 53º lugar, enquanto nosso país ficou em 85º. Também a renda per capita dos dois países era semelhante: a estimativa do PIB per capita de Cuba em 2012 era de 10.200 dólares, contra a estimativa de 12.118 dólares para o Brasil em 2013.
Viajamos de ônibus, cocotáxi, bicitáxi e táxi comum. Pudemos conversar com seus motoristas e saber que um cubano médio recebe 300 pesos mensais (equivalente a mais ou menos 15 dólares) e que há cotas para compra de alimentos. Quem trabalha no turismo está conseguindo melhorar o padrão de vida e isto tem provocado desigualdade de acesso a bens de consumo. Aliás, a falta de consumismo é o que melhor caracteriza a ilha. Não há propaganda, a não ser do governo. No entanto, este quadro começa a mudar e as tensões são visíveis no discurso oficial.
As mudanças em curso não são apenas econômicas, embora a liderança política queira caracterizá-las como tal. Há uma preocupação enorme em acomodar as concessões à iniciativa privada preservando-se os valores socialistas. Por outro lado, há um desgaste político, em um sistema no qual as eleições são indiretas, e principalmente os jovens se sentem alijados das instâncias de poder. As reformas econômicas certamente levarão a mudanças políticas.
Há muitos desafios para o povo cubano no momento. Os êxitos da revolução já não são sentidos, e o povo parece querer mais. A complexidade de suas lutas históricas por um mundo menos desigual só reforça a admiração de quem tem o privilégio de testemunhar esse esforço cotidiano.
TELMA GIMENEZ e PALOMA GIMENEZ
são, respectivamente, professora e advogada em Londrina
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