Cuba não é mais uma ilha - Osmani Costa
Cuba não é mais uma ilha
Osmani Costa
Quando os cientistas políticos, filósofos, historiadores e outros profissionais do ramo forem analisar, daqui a algumas décadas, o desenvolvimento da espécie humana durante o século XX, um capítulo especial deverá tratar do poder de manipulação dos grandes conglomerados internacionais de comunicação de massa.
Outro certamente estudará como pôde Cuba - país pejorativamente chamado de ilha - tão minúscula no território e na população, enfrentar com tanta coragem e determinação, ao longo de 40 anos, o feroz embargo político-econômico dos Estados Unidos, o maior e mais poderoso império da História da Humanidade.
No final de julho, aconteceu em Brasília o Encontro dos Ministros de Educação de todos os países do continente americano. Todos menos o de Cuba, que não compareceu por exigência e veto dos Estados Unidos. Foi uma pena, porque os cubanos têm muito a ensinar em matéria de educação básica, principalmente aos países pobres da América do Sul.
Em Cuba, todas as pessoas estudam gratuita e obrigatoriamente até o final do 2º grau. O índice de analfabetismo atinge apenas 2% da população, que é de cerca de 11 milhões de habitantes. No Brasil, com população aproximada de 160 milhões, o analfabetismo alcança perto de 17%. A saúde pública de Cuba também atingiu grandes avanços, em comparação com os países latino-americanos. Lá, a mortalidade infantil vitima menos de 20 bebês entre mil nascidos. E a expectativa de vida é de 74 anos. No Brasil, 53 crianças entre mil nascidos morrem antes de completar 1 ano; e a expectativa de vida é de 68 anos.
A única revolução socialista armada que obteve sucesso nas Américas também garante habitação, trabalho, alimentação e transporte coletivo - a tarifa custa US$ 0,2 - entre outros direitos, a quase toda a população. Pode parecer pouco, quando os meios de comunicação globalizados vendem a falácia de que nos países capitalistas as pessoas têm direito a carros importados, roupas da moda, hotéis 5 estrelas, férias na Europa e a votar no presidente.
Cuba é pequena e enfrenta sérios problemas econômicos, notadamente depois do fim do Bloco Comunista do Leste Europeu, com o desaparecimento da União Soviética no final da década 80. O país produz muito rum, charutos e açúcar, que antes tinham exportação garantida. Agora, com a manutenção do bloqueio econômico norte-americano e a inexistência dos países amigos na Europa, a situação piorou.
A maioria dos prédios do centro velho da capital Havana, construídos há séculos e transformados em Patrimônio Cultural da Humanidade, caem aos pedaços por falta de recursos para a restauração. Pelas ruas - muito limpas e arborizadas - rodam automóveis com mais de 40 anos de uso. Os salários são baixos; a população tem uma vida dura e humilde, mas deixa transparecer um imenso orgulho nacional, respeito ao líder Fidel Castro, e amor à Pátria.
Aos poucos, Cuba - que também não é membro da ONU por imposição dos Estados Unidos - vai se abrindo ao exterior. Já chegaram por lá as redes de hotéis internacionais, os primeiros carros importados e a televisão por assinatura. Ligações telefônicas podem ser feitas, com o uso do cartão, do orelhão da esquina - que ainda são em pequeno número - para qualquer país. São os efeitos positivos da globalização da economia.
As pessoas têm poucas roupas e ainda não votam para presidente, mas também não se vê indigentes esmolando ou caídos pelas ruas como no centro de Londrina ou de São Paulo. O Paredão é coisa do passado, mas ainda há muitos presos políticos a ser soltos. A economia começa a se abrir em bom ritmo - em busca dos dólares dos turistas europeus, principalmente - mas a redemocratização caminha apenas lentamente, depois de quase 40 anos da Revolução Socialista e da implantação da ditadura de esquerda.
Nas casas, já podem ser vistas fotografias do Papa João Paulo II, que esteve lá recentemente, ao lado das de Chê Guevara e Fidel. Nem todos estão satisfeitos em Cuba. Nos bares e na avenida da praia de Havana é comum a presença de prostitutas - não menores de idade - oferecendo-se aos turistas em troca de poucos dólares, como ocorre no Recife, Maceió e outras capitais turísticas do Brasil. É fácil encontrar também cubanos vendendo charutos - normalmente roubados ou falsificados - maconha e outras drogas; e motoristas oferecendo corridas em carros não autorizados para funcionar como táxis.
Enfim, a globalização - da economia, da comunicação e cultural - chegou definitivamente em Cuba, com seus benefícios e malefícios. Há muitos equívocos e acertos em relação a Cuba. Eles foram cometidos pela ONU, pelo próprio governo cubano, e principalmente pelos Estados Unidos, não só nas últimas décadas, mas ao longo de mais de 500 anos de existência. Nada que possa ser resolvido em pouco tempo. Mas o pequeno país do Caribe já deixou de ser uma simples ilha - apesar de cercado de água por todos os lados - olhando para o próprio umbigo. Só falta os Estados Unidos, dono do sistema internacional de comunicação de massa, autorizar a divulgação. Talvez isto ocorra no próximo milênio.
OSMANI COSTA é sociólogo, jornalista, professor da UEL e repórter da Folha, e esteve recentemente em Cuba





