CSN, Vale e Petrobras
CSN, Vale e Petrobras
Léo de Almeida Neves
Sem despertar constrangimento ou rubor na face presidencial, a Cia. Vale do Rio Doce (mal) privatizada escancara a prevalência das ambições empresariais privadas diante dos mais altos interesses da Nação. Escolheram presidente do seu Conselho de Administração Roger Agnelli, do Bradesco, que na época do leilão sequer pôde integrar o grupo vitorioso da Valepar, porque tinha prestado consultoria ao BNDES, mas o banco penetrou camuflado pelo Fundo Opportunity, onde também se abrigava o Citibank.
Desde a privatização, em 6 de maio de 1997, a Vale praticamente nada investiu, suspendeu a construção da Salobo Metais (custo previsto de US$ 1,5 bilhão), no Pará, e minimizou sua atuação em lavra e pesquisa, esvaziando a Docegeo e tirando da agenda novas descobertas de jazidas ou desenvolvimento das já identificadas; não formou novas joint-ventures no território brasileiro.
Contrastando com sua conduta vegetativa de simplesmente explorar feitos da antiga estatal, a Vale foi pródiga na concessão de dividendos, no percentual de 70% sobre o lucro líquido. Somando os R$ 2 bilhões previstos para este ano, ela terá contemplado seus acionistas, no quadriênio, com R$ 3,5 bilhões (70% de R$ 5 bilhões), mais que o preço de aquisição de R$ 3,338 bilhões.
Enquanto ainda tramitam na esfera judicial ações contra o leilão de privatização, a Vale em conjunto com sua subsidiária Itaco, com sede em Nassau (Bahamas) comprou 63,06% do capital total da multinacional Samitri (incluindo a subsidiária Samarco) com matriz em Luxemburgo (Grupo Arbed), por R$ 971 milhões, valor maior do que o faturamento dessas duas firmas em 1999: R$ 773 milhões e resultado apenas de R$ 39,2 milhões no exercício.
Em tacada de mestre, o Bradesco e a Previ do Banco do Brasil venderão ao grupo têxtil Vicunha, do empresário Benjamim Steinbruch, as ações que possuem na Companhia Siderúrgica Nacional (Volta Redonda) por US$ 1 bilhão, recebendo parte a prazo a fim de facilitar o negócio. Para o pagamento à vista, a Vicunha obteria financiamento do BNDES e dos bancos norte-americanos Chase e Nations Bank (atual Bank America), sendo que este último já tinha emprestado US$ 1,2 bilhão para a CSN Corporation, com sede nas Ilhas Cayman, ficar majoritária na Valepar. Afora o empréstimo, o Nations Bank entrou de sócio na compra da Vale com US$ 400 milhões, através do Fundo Sweet River Investments das Ilhas Cayman, do qual possui 40%. Outros 40% pertencem a George Soros, por meio do fundo Quantum Industrial Partners e o restante 20% ao ex-Banco Liberal, adquirido pelo Nations Bank, após o leilão. A contrapartida da CSN na operação será a venda ao Banco Bradesco e a Previ de sua participação na Vale.
Rápido no gatilho, em sua primeira entrevista à imprensa, Roger Agnelli anunciou que está analisando a compra da deficitária Caraíba Metais, fundada pelo falecido Baby Pignatari, hoje pertencente a fundos de pensão, e um sorvedouro de dinheiro. O novo presidente do Conselho de Administração da Vale extravasa seu voluntarismo e não esconde o intento: Procuramos oportunidades aqui e no exterior. A intenção é incorporar negócios novos fora do País, sim. De sua parte, Benjamim Steinbruck, que ficará majoritário na CSN com a Vicunha, tem reiterado que o caminho natural é crescer no exterior.
O governo federal, indiferente ao imobilismo da CSN e da Vale, embora detenha 32% do capital votante da mineradora, só este ano resolveu indicar os dois representantes a que tinha direito no Conselho de Administração. Nos exercícios anteriores cedeu os dois lugares aos acionistas privados e o Tribunal de Contas da União parece alheio ao que se passa na empresa, ainda com forte presença acionária governamental.
Recentemente, a imprensa acordou de sua letargia neste tema, criticando a falta de uma política estratégica da Vale. Entrementes, os donos da CSN e da Vale têm esbanjado demonstrações de competência, desde a maneira como constituíram os grupos para adquirir duas empresas-símbolo do País, a engenharia financeira com apoio e participação direta do Bradesco e de bancos norte-americanos e, agora, esse intrincado jogo de xadrez, com troca de posições acionárias e assunção de controle.
Outra prova de sabedoria dos sócios da CSN e da Vale foi a conquista do beneplácito da mídia e da simpatia ou conformismo dos poderes da República. Nas últimas eleições presidenciais e de governadores, as duas gigantes privatizadas e seus controladores separadamente contribuíram generosamente nas campanhas do atual presidente da República e de candidatos dos partidos do governo e da oposição a cargos executivos e legislativos.
O que decepciona e revolta é o Brasil deter as maiores reservas minerais do mundo, necessitar novos projetos de capitais nativos ou estrangeiros para gerar atividades e riquezas, criando empregos e trazendo progresso, e o governo federal, além de não elaborar uma política para o setor forçou privatizações deletérias de caráter ideológico, por submissão ao neoliberalismo e ao Consenso de Washington. Até o Contrato de Risco Vale-BNDES, assinado às vésperas do leilão, estipulando aplicação durante sete anos de R$ 400 milhões em 104 pontos e 385 áreas onde já se descobrira minérios, faltando o dimensionamento das jazidas, foi rasgado ou posto no lixo.
Pior que, na esteira do ocorrido com a Vale e a CSN, o governo vai vender suas ações com direito a voto da Petrobras (mantendo 50% mais uma), dando mais um passo rumo à sua privatização.
O estadista Getúlio Dornelles Vargas criou a Companhia Siderúrgica Nacional de Volta Redonda e a Cia. Vale do Rio Doce (no primeiro governo) e a Petrobras (no derradeiro mandato eleito pelo povo) para servirem de instrumentos básicos da nossa emancipação econômica.
Será que o governo, o povo brasileiro e suas lideranças vão continuar impassíveis, assistindo inertes ao desvirtuamento do caráter nacional e empreendedor dessas três empresas, fundamentais para o Brasil cumprir seu destino de potência mundial?
- LÉO DE ALMEIDA NEVES, suplente de senador pelo Paraná e ex-deputado federal, exerceu a diretoria da CREAI do Banco do Brasil





