Cruzamento com Pelé - Luiz Geraldo Mazza
Cruzamento com Pelé
Pois não é que em 1974 tive uma situação, junto à Polícia Federal, decorrente de um cruzamento com Pelé? Domingo, no Super Técnico da Band, o Pelé, para surpresa de muitos, declarou que não aceitou ir à Seleção na Copa de 74 porque havia tomado conhecimento das torturas no Brasil. O fato relatado é verdadeiro e envolve o regime militar interessado em bloquear a iniciativa do maior atleta do século de recusar-se a jogar na Seleção, vale dizer, alegoricamente, a não se alinhar ao País. Isso já havia ocorrido em 72, no Mundialito, a tal da Mini-Copa, no Sesquicentenário da Independência, quando também Pelé não quis saber da competição.
Qual o cruzamento que houve entre Pelé e a gente? Simples: a ditadura mandava uns bilhetes para as emissoras de rádio e tevê e aos jornais, recomendando que não se comentasse um determinado assunto e este, o da negativa do jogador, foi um deles. A essa época eu estava no Canal 12 e já saía, meio na corrida, da Redação da Folha de Londrina para a instalação da Rua Emiliano Perneta, em cima da hora do noticiário. Afobado, não olhei para ver as proibições da PF e fui ao ar e fiz exatamente o comentário que a censura não queria.
Lembro bem em que medida detalhei o símbolo que Pelé representava: negro e pobre, do interior, ninguém expressava como ele a ascensão social ao lado do orgulho nacional. Argumentei que a recusa de Pelé equivalia, ainda mais em seu caso específico, à negativa do vitorioso, do que se firmou pelos seus próprios esforços, a usar o fardamento nacional.
Terminado o comentário, em que acentuava a frustração que aquilo representava para os governantes, todos alinhadíssimos no culto aos símbolos formais da nacionalidade, a bandeira e o verde-amarelo, atendi um telefone da Polícia Federal em que me perguntavam se não tinha tomado conhecimento da censura do tema pelo Ministério da Justiça. Não tinha. Também não houve consequência alguma, além das restrições de mercado de trabalho que me foi aberto pelo João Milanez na Folha, e o Cunha Pereira, na TV Paranaense. Foram os que primeiro me anistiaram.
BIZARRICE
O litoral paranaense é acanhado demais. Apesar disso, ultraleves ameaçam a segurança de banhistas. E também os jetskis, pranchas de surfistas, anzóis e chumbadas de arremesso. Afora tudo isso, o esgoto ameaçador, a cloaca.
AXIOMA Assisti, segunda-feira, à pequena parte do Programa do Ratão no horário político: pensei, desavisado, que haviam voltado as sessões do Cine-Trash. Mais uma do Elísio Marques, advogado e anarquista, que tem um filtro especial para ver as coisas.
GLOSA O senador Requião obteve vitória ontem na Comissão de Constituição e Justiça do Senado para o seu projeto de lei obrigando que as urnas eletrônicas forneçam comprovante do voto digitado, a contrafé. E a contrafé do processo, em que se elegeu governador, aquele do Ferreirinha?
EPIGRAMA A culpa da colisão dos barcos em Foz do Iguaçu pode ser atribuída, segundo um ironista militante, ao Macuco, mistura de macaco e relógio cuco. O relógio, a precisão. O macaco, o inesperado, apesar de primo do homem.
SPRAY Defender o empresário nacional como prioridade do BNDES, conforme o discurso de Alcides Tápias, é alguma coisa parecida com pretender amparar o empreendimento regional numa ordem globalizada. - Só os fortes poderão ser levados em conta: Camargo-Correa inclusive, Ermírio de Moraes, entre outros. - O pior é que as privatizações cairão necessariamente nas mãos de consórcios internacionais, muitos deles comandados por estatais européias, como se deu com o leilão da Light no Rio, vai se dar aqui com a Copel, e já acontece, de certa forma, com a Sanepar, graças ao governo alegre que quebra empresas públicas e privadas paranaenses e fortalece as transnacionais. - Uma ducha de água fria anteontem no governo triunfalista de Lerner: a queda em menos 10%, registrada pelo IBGE no mês de julho, na atividade industrial, deu margem a reflexões. - É que o Palácio Iguaçu vinha faturando o desempenho estatístico e ontem estava amuado, e só melhorou o humor quando apareceu uma notícia negativa contra a esposa do senador Requião em torno de dólares investigados pela Polícia Federal. - Por aí se vê a mediocridade desse pessoal incapaz de enxergar o próprio rabo e mentindo, diariamente, com a novela dos royalties de Itaipu. - Com porta de segurança e tudo, a agência do Meridional da Comendador Araújo foi assaltada. Diante da Polícia que temos, Curitiba virou um paraíso para assaltantes daqui e de fora. Uma cidade arrombada. - Hoje, no STF, pode sair a decisão sobre a Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin), do PT contra a Paranaprevidência. - PM do Paraná não pode atender convocação para Timor Leste por um fato elementar: não tem efetivo nem para sua obrigação de rotina, quanto mais para integrar uma força de paz da ONU. - Donos de postos de combustíveis do Paraná querem saber de onde a Agência Nacional de Petróleo tirou o preço da gasolina em Curitiba, o mais barato do Brasil, de R$ 1,08.
FOLCLORE Agripino Grieco, crítico feroz, ao ser apresentado a uma senhora, saiu-se com esta: Mas já nos conhecemos! Até dormimos juntos! E ante o espanto do marido, a explicação: foi numa conferência do Pedro Calmon!
CROMO Frágil miosótis no seu ramo,// balouçado pelo vento,// pende sobre o abismo! Um flash do médico Mário Farah Rafka, em transição para a poesia, em Coragem, do seu último livro As auroras são eternas.
AFORÍSTICO Nossos políticos são de uma pusilanimidade a toda prova: enquanto Aníbal Khury estava vivo, permitiram a reeleição (inconstitucional) para a presidência da Casa. A vontade política subordinada a casuísmo afetivo.





