Papas sempre foram criticados por jornais laicos e geralmente defendidos internamente, numa amostra confundida muitas vezes com certo corporativismo. Nem sempre as defesas internas eram justas e as críticas externas lúcidas. Mas com Francisco está sendo diferente! Admirado pelo mundo outside, que entende e acompanha o seu esforço de modernizar a Igreja, tornando-a aquilo que o Concílio Vaticano 2º dos anos 1960 preconiza, e de lidar com os problemas sérios que ela vem apresentando, vê-se agora metralhado por setores conservadores retrógrados, que nunca aceitaram a sua postura mais progressista.

O que antigamente eram murmúrios nos corredores da Santa Sé hoje está esparramado em jornais do mundo inteiro. Não há mais pudor nem segredos, quando o assunto é oposição ao papa. Francisco decidiu desde o início não oxigenar os discordantes. Talvez seja a mais sábia atitude. No entanto, a última crítica, vinda de um ex-embaixador do Vaticano em Washington, é agressiva demais para ter como resposta o silêncio.

Ao insinuar que a homossexualidade está na base dos abusos sexuais nos Estados Unidos e, portanto, os homossexuais seriam os predadores, o arcebispo italiano Viganò não está só forçando muito a barra sobre uma relação falsa entre estas duas realidades, mas principalmente denunciando o papa de ser tolerante demais com a cultura homossexual na Igreja.

É aqui que ele e os bispos americanos conservadores querem chegar. Pedir a renúncia do papa! Um papa que não lhes agradou desde o primeiro momento. Um papa que não escreve toda semana uma "mensagem anti-aborto" para ser divulgada nos grupos de lobbies milionários americanos que usam milhões de dólares para combater o aborto. O papa teria dito que o posicionamento da Igreja era óbvio desde sempre em relação a este assunto e não precisava se manifestar constantemente! Isso irritou os lobistas! O papa Francisco está na mira deles, desde a sua eleição! Padres novos, seminaristas e grupos de leigos, nostálgicos da Igreja pré-conciliar, têm aprofundado a distância para este papa argentino.

Existe, evidentemente, alguma vantagem neste jogo aberto. A Igreja, afinal, não é feita de padres e bispos! São todos os que se dizem católicos, que têm o direito de se manifestar e de estar bem informados. Hoje, não poderão existir mais segredos rondando as questões que em primeiro lugar aos batizados e depois aos cidadãos em geral dizem respeito.

A Igreja deve primar pela transparência e esta se reflete concretamente, nas dificuldades que o papa Francisco vem tendo para implantar as suas reformas. A Igreja Católica não pode ser jamais uma sociedade paralela; nem se assumir como a encarnação do Reino preconizado pelo seu fundador. Compete a ela evangelizar, sem proselitismo e com respeito pelo diferente, anunciando as teses do Evangelho. É neste campo que entram as ações de Francisco. Tornar a Igreja mais ágil, menos institucionalizada e mais cumpridora da sua Missão. Uma Igreja "em saída", usando uma expressão de cunho próprio, que lhe é muito querida.

Francisco não é uma andorinha fazendo verão. Não a única! Ele é um parto de uma gestação demorada, que finalmente chegou ao final. A Igreja que nasceu daquilo que ela mesma chama de Novo Pentecostes, referindo-se ao concílio atrás nomeado, está alguns anos atrasada. Mas aos ouvidos dos apressados sempre ecoarão as palavras de Alceu Valença em "Romance da Bela Inês": "A história não tem pressa". Acredito piamente que, por mais que o papa seja coerente com suas ideias, sempre desagradará aos dois lados que o questionam.

MANUEL JOAQUIM RODRIGUES DOS SANTOS é padre na Arquidiocese de Londrina

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