Cronologia da violência
PUBLICAÇÃO
domingo, 06 de abril de 2003
Francisca Vergínio Soares 
Todos nós, cidadãos comuns, lamentamos imensamente o genocídio que os EUA e seus aliados estão praticando contra o Iraque sob o pretexto de tirar Saddam Hussein do poder. A perplexidade salta aos olhos porque milhares de vozes que ecoaram pelo mundo contra a guerra não conseguiram impedir este atraso na história da humanidade. Os EUA, conseguiram se sobrepor à ONU e traçar um código específico de relações internacionais, criou-se uma nova situação a partir deste episódio que coloca em xeque a própria existência deste instrumento que precisa ser repensado, inclusive quanto à sua composição.
Por mais que o governo americano tente convencer o mundo de que a invasão em curso é para proteger o mundo, seu discurso não condiz com a prática, é o que afirma o americano e cientista político Michael Klare. Para ele, a insistência do presidente Bush de ir à guerra não tem nada a ver com armas de destruição em massa, nem com o terrorismo, nem com a democratização do Iraque.
Essencialmente, o que move os EUA é uma questão de poder. Esta guerra está sendo desencadeada com o objetivo de dominar o Golfo Pérsico e suas vastas reservas de petróleo ao longo das próximas décadas. Com a região sob seu controle, os EUA ficarão em posição de ditar as regras do mercado mundial do petróleo e impor condições aos países dependentes do combustível importado os europeus, o Japão e a China.
A guerra tem a ver com o petróleo como fonte de poder. A partir do Iraque, os EUA pretendem controlar politicamente todo o Oriente Médio, conclui Klare. Pode-se ainda entender esta invasão como uma imposição do modelo neoliberal ou da globalização econômica a algumas partes do planeta que ainda resistem em adotá-lo, como por exemplo, o Oriente Médio. A economia americana precisa de novos mercados de consumo e, se eles não se abrem espontaneamente, faz-se a fórceps. Tem-se portanto duas situações: se apropriar de um recurso natural o petróleo e vender os seus produtos.
É preciso lutar por outro mundo possível, com menos violência. Esta luta não deve ser apenas por um mundo pós-neoliberal, mas necessariamente deve derrotar a política de armamento e militarização dos diversos conflitos que assolam diferentes partes do planeta. Em que pese o mundo assistir ao vivo o confronto entre EUA e Iraque, outros conflitos seguem silenciosos por ser, em sua maioria, guerras civis geradas pelo separatismo, fanatismo religioso, cultural ou por motivos político-ideológicos.
Enfim, a guerra que explode no Oriente Médio retrata a cronologia da violência que tem caracterizado as civilizações e a incapacidade humana de resolução dos conflitos pacificamente. Também em nível local os conflitos têm sido resolvidos ''à bala'', impera o individualismo e a demonstração de força. Tomada as suas devidas proporções não vejo diferença entre a violência implementada pelo governo Bush e pelos crimes hediondos que têm se intensificado, principalmente contra crianças e adolescentes, são crimes contra a humanidade.
FRANCISCA VERGÍNIO SOARES é socióloga e professora na Universidade Estadual de Londrina e da Uninorte


