Arte marcial que utiliza golpes de articulação para imobilizar o oponente, o jiu-jitsu tem tomado os noticiários. Não necessariamente as páginas esportivas. Muitos jovens presos por agressão apresentam-se como praticantes da modalidade e encabeçam as manchetes policiais.

Há um mês, o campeão Ryan Gracie faleceu na cela de uma delegacia em São Paulo, depois de se envolver em um acidente de trânsito. Tetracampeão paranaense, campeão sul-brasileiro e bicampeão mundial, o londrinense Bruno Allen defende o esporte e rechaça a pecha de ''pitboy'' à classe, segundo ele, prejudicada por uma minoria que não leva a sério a filosofia do jiu-jitsu.

Qual a origem do preconceito com o jiu-jitsu?
Essa imagem negativa vem dos anos 90, quando o jiu-jitsu explodiu e ganhou projeção. A família Gracie - que tinha os maiores expoentes da prática - queria provar que se tratava da arte mais eficiente. Para tanto, muitos saíam brigando.

E essa situação mudou?
A partir da metade dos anos 90 essa imagem começou a mudar. O jiu-jitsu ficou mais esportivo, surgindo campeonatos e revistas que só tratavam do assunto: hoje, o campeonato mundial conta com milhares de atletas brasileiros, mesmo sendo realizado fora do país, e o meio ficou mais esportivo.

Mas o caso Ryan Gracie é recente...
Episódios como esse afastam as pessoas do esporte. Sempre enfatizo: no jiu-jitsu, como em todas as esferas da vida, há pessoas boas e pessoas ruins. É como o pitbul, que, não tratado da forma correta, torna-se violento. Infelizmente os maus exemplos acabam por gerar esse tipo de comentário.

Já foi taxado de ''brigão''?
Infelizmente isso ainda acontece: às vezes você está na rua e ouve coisas do tipo ''esse cara bate''. Muitos nos taxam de pitboys e somos elevados à condição de maus. Além de não ser, penso que, a exemplo de mim, há muitas pessoas empenhadas em fazer o esporte - que é amador e está em ascensão - crescer continuamente.

Qual a filosofia que apregoam?
A filosofia que aprendi é a do jiu-jitsu como esporte e não como defesa pessoal. É claro que, com o tempo, você aprende a se defender. Mas esse não é o intuito. Àquele que quer fugir à regra, não vai funcionar. Explico: reflexo, mobilidade de quadril e demais ensinamentos são etapas a serem absorvidas com o passar do tempo. Não funciona da forma ''sou brigão, vou me matricular na aula e sair batendo''. As coisas não são assim.

Na maioria dos casos, então, os ''pitboys'' não são lutadores experientes?
Não. O próprio meio refuta os brigões. Quem treina há bastante tempo sabe que, se brigar, pode machucar um leigo, inexperiente e que nossa filosofia é totalmente contrária a qualquer reação. Os experientes que foram - ou são - pitboys, pertencem à minoria que tentou estragar a imagem do jiu-jitsu, fazendo uso da força para se sobressair. O genuíno praticante não se diz, em momento algum, ''lutador'', para intimidar uma pessoa.

É comum o uso de anabolizantes?
Um dos problemas da prática e das competições é não termos o dopping. Há aqueles que usam e acredito que boa parcela dos que consomem anabolizantes já o faziam nas academias, por treinarem pesado, migrando ou combinando a musculação com o jiu-jitsu.

A propósito: malhação e jiu-jitsu caminham juntos, necessariamente? Tem-se a imagem dos ''guarda-roupas'', quando se fala no esporte.
Uma boa pergunta e um bom tabu a ser quebrado: só o atleta, que é profissional do jiu-jitsu, mesmo, precisa se preparar, manter o físico em dia e demais rotinas. Para quem não tem essas pretensões, o jiu-jitsu, em si, não requer que se faça uma preparação física. Ele é a preparação.

E a demanda pelo jiu-jitsu, como anda?
É grande, mas já foi maior. Por incrível que pareça: quando há os escândalos, as pessoas buscam mais. Em Londrina, graças a Deus, não temos casos semelhantes aos que os jornais volta e meia noticiam. No Brasil, em geral, as empresas começaram a acordar e temos campeonatos valendo dinheiro, o que já é um começo.

O jiu-jitsu dá dinheiro? Afinal, trata-se de um esporte amador...
Não. Recentemente estive por dois meses nos Estados Unidos. Enquanto o Brasil, com os maiores talentos da área, não dá o mínimo valor a seus atletas, os Estados Unidos, assim como o Japão e a Europa, concedem patrocínios e maiores oportunidades.

O que o jiu-jitsu traz a seus praticantes?
Além de ser indicado a todas as idades e tipos físicos, o jiu-jitsu traz paz a quem leva sua filosofia a sério. Outro fator a ser ressaltado: evolui muito. Na linha de comparação com o judô, por exemplo, que é mais tradicional, o jiu-jitsu sempre reserva treinos diferentes, nunca será a mesma aula.

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