Crônica policial
Não roube. O governo detesta concorrência - De um decalque de carro, nos EUA.
José Roberto Whitaker Penteado
As coisas vêm acontecendo com mais rapidez do que um analista hebdomadário consegue analisar. Torna-se necessário, portanto, agrupá-las, tentar dar sentido a fatos aparentemente desconexos, mas que de acordo com a inflexível sincronicidade de tudo estão lá para que a gente os decifre e aja baseados no nosso conhecimento.
Na semana passada, no estacionamento de um supermercado do Rio, um cidadão parou o seu Fiat Uno azul ao lado de outro Fiat Uno azul igualzinho. Achando a coincidência curiosa, teve a enorme surpresa de constatar que as placas eram, também, idênticas. Estava diante de um clone do seu automóvel... Chamou um guarda e quando o dono do outro carro chegou, tratava-se de um oficial do exército, que alegou que o carro era emprestado - de um soldado da PM.
Claro que estamos todos, ainda, vivendo sob o impacto das ‘‘tabelas de preços’’ para venda de deputados e candidatos a deputado. Os candidatos cobram cotas de 20 a 25 mil reais para levar um juiz de futebol a alterar o resultado de um jogo; e os deputados do longínquo Acre acham uma verdadeira ‘‘mixaria’’ a etiqueta de 200 mil reais para vender o voto no Congresso. O custo de vida no Acre, portanto, deve ser altíssimo.
Vida que segue - como dizia o puro João Saldanha. Dia desses, um importante membro do Judiciário federal (no Maranhão) tentou assaltar o Banco do Brasil, outorgando 250 milhões de reais a um cliente como indenização por um cheque devolvido.
Mas - como assinala a citação no início deste artigo - parece que o roubo deslavado não é privilégio dos países pobres. Quem inventou a citação - e, em especial, quem a colou no seu carro - está obviamente querendo registrar um protesto de cidadão do primeiro mundo.
De fato, faz não muito tempo, um premier japonês caiu por meter a mão na bufunfa - em iêns. E o marido da rainha da Holanda foi, também, flagrado com as mãos no real cofre, pondo a salvo o resultado de uns astutos investimentos que fizera.
Parece que, nos países pobres, as comissões são maiores - e mais desavergonhadas. Mobutu, do Congo, está-se aposentando para usufruir dos bilhões de dólares que economizou do seu salário - e do soldo de militar. E um empresário europeu conta, na ‘‘Veja’’ da semana passada, como lhe pediram, na África, frios 300 mil dólares para que pudesse abrir uma simples oficina. Aliás, um amigo meu - contratado para fazer um trabalho de consultoria em um país africano - teve a honra de ouvir o sutil ‘‘pedido’’ de comissão do próprio presidente, a sós, no gabinete.
E antes que alguém diga que o roubo oficial é um fantasma do capitalismo, permita-me lembrá-lo de que as nações onde atualmente se rouba mais desbragadamente são os ex-países comunistas, o que, ao contrário de provar que o capitalismo corrompe, apenas põe a nu o que deveria acontecer antes, nas hostes oficiais e o corporativismo e a censura não permitiam ser divulgado.
Devo aproveitar essas mesmas linhas para fazer uma colocação legal, necessária, pois, como jornalista, corro o risco de ser processado - como foi Paulo Francis - e perder todas as minhas economias (essas sim, de honorários e salários) ou morrer de enfarte. Não possuo ainda uma única prova acerca dos fatos aqui relatados, nem sobre os roubos nacionais nem estrangeiros, de modo que estou apenas registrando no papel coisas que ouvi de outras pessoas ou li na imprensa. Mas desafio o leitor, qualquer leitor - do Rio, S. Paulo, Manaus ou Londrina - a fazer uma revisão mental para lembrar-se de quando foi achacado, por alguém ligado ao governo, para pagar uma comissão, uma propina ou uma cervejinha.
Não se trata, portanto, mais, de discutir a respeito de se o governo rouba, mas quanto o governo rouba. E isso vai ser o tema do próximo artigo.
- JOSÉ ROBERTO WHITAKER PENTEADO é diretor da Escola Superior de Propaganda e Marketing.

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