Paulo Otávio corre de um lado para o outro na frente de casa, ansioso. Pula para o alto várias vezes, olhando em direção ao campinho que existe logo ao lado de sua casa. Ouve a gritaria dos meninos e se assanha cada vez mais.
- Paulo Otávio já te falei - grita a mãe. Vem para a dentro senão o homem do saco passa aí e te leva.
- Ah, manhê, deixa eu jogar bola. Já tá todo mundo lá - protesta o menino.
A mãe sai da casa, pega-o pela orelha e o puxa para dentro.
- Hoje, não! Aqueles moleques de rua tão lá de novo. Eles têm piolho e se você jogar com eles, além de ficar com a cabeça cheia de lendia, pode levar até uma facada. Esses meninos não são companhia para você!
O barraco é simples, metade de lona, metade de paus assentados com barro. Zezinho mora ali, numa das muitas invasões da cidade, com o padrasto, a mãe e mais quatro irmãos.
Mais uma vez o padrasto está bêbado, grita violentamente com as crianças, começa a quebrar pouco a pouco o que tem dentro do barraco. Volta-se para a mãe, dando-lhe socos e chutes até que ela cai desmaiada no chão.
As crianças assustadas e com os olhos arregalados se amontoam num canto, com medo. Zezinho, que sempre foi o mais valentão da turma, parte pra cima do padrasto para tentar proteger a mãe. Leva uma bofetada no rosto e cai com a boca sangrando.
Com os olhos cheios de lágrimas e o olhar melancólico ele promete pra si mesmo que aquela foi a última vez que apanhou de alguém.
No outro dia, logo cedo, a rua ganhou seu mais novo morador.
A história de Zezinho e Paulo Otávio foi interrompida aqui, mas nós, com nossas ações, é que vamos determinar o seu final. O que lemos até agora não é ficção. Os nomes são, mas não as personagens. No mundo em que vivemos somos um pouco do Paulo Otávio e desde pequenos recebemos conceitos e preconceitos de pais, parentes e professores. Vivemos rodeados de Zezinhos, que cheiram cola, pedem trocados, guardam carros, carregam carrinhos de feira.
Cada Zezinho que encontramos nas ruas não foi parar lá por opção. Não nasceu na rua como a flor que brota no jardim. Ele é fruto de famílias desestruturadas, da falta de amor, e mais uma complexa série de fatores que têm de ser trabalhados.
A sociedade cobra insistentemente do poder público que tire os menores e mendigos das ruas. São muitas as reclamações de crianças e mendigos perambulando e dormindo em várias partes da cidade. E nos pedem que os tiremos de lá.
Grande parte dos que nos cobram não se questionam o que fazer com essas crianças. Será que simplesmente jogá-los numa kombi e levá-los para bem longe dos olhos de todos, como fazem as carrocinhas com os cachorros, seria a solução?
Acreditamos que não. E desde que assumimos a Secretaria de Ação Social de Londrina temos trabalhado para tirar crianças da rua, mas de uma maneira digna, tentado dar a essas crianças uma nova vida. O trabalho é árduo e os resultados só virão com o tempo.
Vamos voltar a nossa história.
Num dia de descuido da mãe, Paulo Otávio vai para o campinho jogar bola mesmo com a presença de alguns meninos de rua.
Zezinho também está lá. Tinha ouvido falar desse campinho. Diziam que a grama estava no ponto para uma boa pelada. E lá foi ele conferir. Só não gostou da presença de uns branquelos, cheirosos e arrumadinhos que estavam por lá.
Paulo Otávio estava meio ressabiado e procurava não dividir bolas para não chegar muito perto dos outro meninos. Tinha medo dos piolhos e das possíveis estocadas de canivete.
Na medida que a bola rolava, os garotos deixaram todos os pensamentos de lado e passaram a tarde correndo atrás da pelota. Comemoram juntos o belíssimo gol marcado por Paulo Otávio, depois de um passe perfeito de Zezinho. Protestaram pelas faltas cometidas perto da área, mas que não foram marcadas. Riram e gozaram dos companheiros depois de jogadas ‘‘fenomenais’’. Unidos pela mesma paixão, eram dois iguais, defendendo o mesmo time dos ‘‘sem-camisa’’.
Num dos intervalos, os dois, sentados perto, discutiam os lances do jogo. Zezinho pensava como aquele branquela podia ser tão bom de bola. Já Paulo Otávio ficava imaginando por que Zezinho não podia ser companhia para ele. Ele era um supercraque e nem uma vez sequer coçou a cabeça ou deu porrada em alguém.
No final da tarde, separados pelo destino, cada um seguiu seu caminho. Paulo Otávio com medo da surra da mãe. Zezinho de volta para a rua, pedindo um dinheirinho aqui e ali para descolar o seu jantar.
Hoje você, Paulo Otávio, é um estudante, ou já é formado. Gostaria de convidá-lo para olhar a criança que já foi um dia, sentar na grama ao lado do Zezinho e conversar sobre futebol. Pergunte a si mesmo o que você, como cidadão e profissional, pode fazer pelo seu companheiro de peladas. Quem sabe o Dia da Criança não ganha outro significado?
- MARISA GOETTEL DO NASCIMENTO é secretária de Ação Social de Londrina

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