Crônica de Natal - Maria Lucia Victor Barbosa
Maria Lucia Victor Barbosa
No século IV, o papa Júlio I determinou que o nascimento de Jesus fosse comemorado no dia 25 de dezembro. Seu objetivo, segundo pesquisadores de assuntos religiosos, era o de instituir uma data sagrada no lugar das Saturnálias, as festas pagãs onde se davam as bacanais, portanto, a exteriorização de sentimentos e comportamentos mais baixos. Uma espécie, eu diria, de Carnaval brasileiro daqueles tempos e lugares, se bem que as orgias de nossa carnavália devam ser superiores a qualquer festejo pagão de outrora.
Mas a data, tenha sido ela fixada pelo papa ou pelo monge Dionísio, no século VI, é de menor importância, pois o essencial reside no significado do nascimento do Mestre, ou seja, na redenção, que conforme a cristandade foi trazida por Jesus Cristo a este vale de lágrimas que rodopia pelas imensidões cósmicas como minúscula partícula do espaço. Quanto a este aspecto de transcendental valor parece que todos os cristãos estão de acordo: Ele veio para nos salvar. Entretanto, sobre a interpretação da redenção é que surgem divergências, as quais originam diferentes modos de pensar, apesar de todos serem estribados na fé.
Manda o bom senso que não se discuta fé. Mas não deixa de ser interessante a possibilidade de refletir, no dia do Natal, sobre os desígnios esotéricos subjacentes à data, não importando ser ela aleatória, pois pensar sobre tal tema é repensar a própria humanidade.
A reflexão pode começar com uma pergunta cuja resposta, é claro, depende não do intelecto, mas do coração de cada um: o nascimento e o sacrifício de Jesus na cruz, absolveram automaticamente a humanidade dos seus erros, ou do pecado, para usar linguagem religiosa?
Se alguém disser sim, com a convicção que brota do seu interior, merece ser respeitado, mas deixará muitas dúvidas para aqueles que considerarem simplista e conveniente tal crença. Mesmo porque, se isso se deu, a humanidade foi santificada, não havendo mais erros neste mundo, o que obviamente não é verdade pois o ser humano continua ignorante, ambicioso, vaidoso, invejoso, hipócrita, ganancioso, impiedoso etc. etc. Ou então, o que seria mais absurdo, não haveria nada de mais pecar à vontade. Fizesse o homem o que fizesse, matasse, roubasse, injuriasse seu semelhante e tudo bem, pois já estaria salvo, bastando que cresse na salvação efetuada por um Messias.
Mas se outros disserem não, considerando que o nascimento e a morte na cruz do enviado de Deus nada significou em termos de redenção, então o Natal não faz sentido.
Em todo caso, tanto para os que consideram Jesus como Deus encarnado, quanto para os que o aceitam como homem e mestre excepcional, pelo menos seria coerente acreditar que ele veio para deixar à humanidade sua doutrina. E que só o próprio homem pode se salvar, ou seja, evoluir em direção à sua centelha divina, atman ou alma que é perfeita, praticando essa doutrina que é o caminho e o legado de Jesus Cristo. Por isso não basta a fé, sendo as obras de fundamental importância.
Só essa compreensão pode justificar a vinda de iluminados como Jesus a esse mísero lugar de sofrimentos. E possivelmente as doutrinas por eles legadas, e até certo ponto seguidas, é que livraram os homens da extinção total. Nisso consiste também o sentido de redenção ou de salvação.
Ao mesmo tempo, a vinda de Jesus coloca simbolicamente a luta entre o bem e o mal, travada a cada momento pelo ser humano. E seria este Mestre o filho pela mão direita, enquanto Lúcifer surgiria como o filho pela mão esquerda? Afinal, o que sabemos nós, que nos arrogamos tantas vez um saber que não possuímos, e que muitas vezes nos faz resvalar para o fanatismo e a intolerância, distanciando-nos em vez de nos aproximar da maravilhosa sabedoria que nos foi transmitida?
Bem e mal se antagonizam com prioridade nas religiões, resvalam para a sociedade através de julgamentos morais, povoam o cinema e a literatura onde é comum a luta entre heróis e bandidos. Bem e mal são o Cristo e o anti-Cristo das profecias e dos milenaristas, a se digladiarem na batalha final onde, se presume, sairá vitorioso o bem.
Portanto, é bom refletir sobre o Natal. Isto pode trazer certas descobertas interessantes, que nos possibilitam ir ao encontro de nós mesmos, ou da gruta oculta do nosso espírito dentro da qual todo o dia renascemos. Mas quantos de nós hoje se detêm para procurar o sentido da vinda de um Mestre?
De fato, parece que as tradições vão se perdendo, apesar do homem não ser mais nem menos religioso do que seus antepassados primitivos. O medo do desconhecido, o mistério acerca de nossa origem, a ânsia de eternidade que nos faz inconformados com nossa finitude, as perguntas sem resposta, nossa fragilidade diante dos perigos e sofrimentos, tudo enfim nos impele em direção ao sagrado. Somos os nostálgicos da divindade, e essa é nossa principal marca humana. Entretanto, o Natal vai se assemelhando cada vez mais às saturnais que o papa Júlio I quis abolir. Tem bailes de Natal, foguetório de Natal, bebedeira de Natal.
Quanto ao Papai Noel, continua popularíssimo, imortalizado pela sociedade de consumo e universalmente aceito. Ele não deixa certamente de ser um figura simpática, sentada nas poltronas vermelhas dos shoppings, andando pelas ruas, postada em frente às lojas num ingente esforço para atrair a clientela. Nada contra ele, apesar de ter sido rebaixado a mero auxiliar de vendas. Contudo, conforme John Bowker, São Nicolau é o santo padroeiro da Rússia, dos marinheiros e das crianças. As igrejas dedicadas a ele eram sempre erguidas na costa, como ponto de referência. Ele trazia presentes para as crianças no seu dia, 6 de dezembro, depois transferido para o dia 25, quando de Santa Niclaus ele passou a ser Santa Claus, o Papai Noel. Mas isto pouca gente sabe, como não são muitos os que de fato se lembram do aniversariante do dia 25 de dezembro. Entretanto, ele veio a este pífio planeta para nos ensinar que há algo mais além das saturnais.





