Se há real perplexidade, por parte do governo, em relação às iniciativas - e atritos - dos EUA, há que se ter tristeza. Os constantes ataques ao Mercosul não apenas eram previsíveis, bem como indicam que a empreitada sul-americana já mostra efetividade.
Mas, o que representa o Mercosul para que seja alvo de um país que possui, por sua vez, um acordo semelhante (o Nafta)? E por que é justo o Brasil receber a maior parte das críticas relativas a esse assunto?
Basta que se observe que há duas grandes potências que predominam em cada um dos hemisférios do continente americano: Estados Unidos e Brasil. Este último promove a formação de um bloco de países do qual, por questões óbvias de recursos, toma a liderança. As questões diplomáticas, estratégicas e comerciais passam a ser discutidas e negociadas com os demais países, com base na constituição do bloco, isto é: diversos contatos com os países não-participantes ocorrem não mais individualmente - de país para país -, mas de bloco para país, ou de bloco para bloco. Dessa forma, o cacife para negociação eleva-se consideravelmente.
Levando-se em conta que, nas relações internacionais, o componente militar do poder tem cedido muito de sua importância em relação ao aspecto econômico (embora não tenha, de forma alguma, perdido sua relevância óbvia), as disputas políticas passaram a se concentrar em destacar questões comerciais, como o alcance e o volume de suas exportações. Assim, zonas de livre comércio e suas consequências têm sido temas prioritários na arena internacional, que aparenta conter um grau de liberalidade bastante superior ao observado nas últimas décadas.
Entretanto, é fácil notar que esse ‘‘mundo mais aberto’’ não existe nos termos em que pensam muitos idealistas. Vide o protecionismo europeu e americano em relação às frutas brasileiras e a contrapartida brasileira no setor
automobilístico. Se há mais vias abertas, há também outras que se fecham, de maneira quase intransigente. É neste contexto que se inserem os blocos internacionais: a proteção interna e a força externa, ampliadas para suportar a elevação assustadora da quantidade e da pressão de interesses externos, bem como para exercer o poder que cada nação tem para alcançar e fazer prevalecer os próprios interesses.
Por esses motivos, a formação de um bloco sul-americano incomoda os Estados Unidos; trata-se de uma contenção dos seus interesses em uma região onde geralmente não se encontravam barreiras substanciais. E o fato de o Brasil ser o principal alvo de críticas deve-se às suas características: proporções continentais, grande quantidade e variedade de recursos naturais, economia mais forte - se comparada aos seus parceiros. José R. N. Chiappin, professor do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo, em projeto enviado às agências de fomento à pesquisa, em 1991, já apontava para as peculiaridades do Mercosul como uma política de contenção dos interesses norte-americanos e de fortalecimento da região no cenário internacional, tendo o Brasil como a potência-líder. Devido a estas razões, têm-se assistido às manifestações de secretários do governo e embaixadores americanos, antagônicas tanto nos aspectos concernentes ao bloco, quanto nos específicos ao Brasil. São posturas indicativas da efetividade do Mercosul e extremamente coerentes com os interesses norte-americanos.
Resta a este país promover ações igualmente consistentes. Já que o bloco dá sinais de força e cresce o número de integrantes e interessados em participar do Mercosul, deve-se buscar políticas para fortalecê-lo. É preciso que seja concretizada a intenção do presidente Fernando Henrique Cardoso de solidificar o aspecto cultural do bloco. Trata-se de considerar a proposta de Samul Huntington e aplicá-la no contexto regional: a América do Sul, como uma unidade civilizacional, pode, por meio da consolidação cultural, atingir o status de potência com poder suficiente para se impor nas relações internacionais e promover seu desenvolvimento interno.
Para tanto, o ensino de línguas, o intercâmbio cultural e científico, enfim, a verdadeira integração deve ser incentivada e almejada. Isso inclui a articulação diplomática dos países do Mercosul para que decisões possam ser definidas em bloco e em favor da região como um todo. E, já que o Brasil é a grande potência regional da América do Sul (mesmo com as objeções argentinas), cabe a ele a responsabilidade de tomar a frente deste processo de integração. Isto inclui não só suportar as críticas e resistências - como as que se têm recebido dos EUA -, mas aprender que, juntamente com elas, vêm lições e indicações de oportunidades. E a oportunidade não bate sempre à porta...

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