Crítica nuvens - Joel Samways Neto
PUBLICAÇÃO
domingo, 22 de fevereiro de 1998
Joel Samways Neto 
É fascinante o efeito da expressão e comunicação humanas. A reação do destinatário, ou dos destinatários, de uma mensagem, o leitor, intérprete. Na leitura geral do mundo as interpretações, as traduções são livres, num exercício em que o homem, como escreveu Humberto Rodhen, vê as coisas não como elas são, mas como ele é. Não seria diferente com as escrituras de jornal. A mesma matéria se presta tanto para provocar reflexão quanto para embrulhar peixe. Depende da crítica do destinatário, ou dos destinatários, da mensagem. Eis aí um enorme desafio ao leitor do mundo: a crítica.
Talvez em razão da história nacional, muito marcada pelo patriarcalismo, doméstico e político, frequentemente as pessoas confundem crítica com censura, repreensão. Porque criticar costuma ser uma ação associada à reprimenda, ao desagrado. Não é por outro motivo que os críticos (os que ainda resistem) são tão odiados. Suas análises são facilmente interpretadas como ofensa - principalmente pelos autores das obras, ou dos discursos, analisados (vide o caso recente entre o crítico literário Wilson Martins e o poeta-cantor Caetano Veloso).
Na verdade, criticar uma obra, ou um discurso, é perguntar qual é a sua proposta. Portanto, a crítica quer é esclarecer, encontrar os fundamentos, construir compreensão acerca do objeto da análise.
Passei por esse tipo de corredor várias vezes. Porque minhas escrituras são de crítica (crítica à própria imprensa, aos governos e governantes, aos costumes, aos partidos políticos etc.). E dos que tiveram suas ações, ou seu discurso, criticados, não poucos entenderam a crítica como se fosse ofensa - e o que é pior, ofensa pessoal.
A última foi por causa de um artigo publicado nesta Folha, no dia 03/11/97, intitulado Ministério Público no palanque?. Critiquei um discurso do procurador-geral da Justiça, o chefe do Ministério Público (MP) estadual, proferido na abertura da II Conferência Estadual de Assistência Social. Em meu texto questionei o que vi ser uma exagerada carga de ideologia político-partidária no discurso de quem representava a instituição Ministério Público, e que na ocasião falava em nome dela. Critiquei o fato de o discurso do gerente de um órgão de Estado, criado por lei, com finalidade e competência definidas em lei, e por lei um órgão essencialmente imparcial no desempenho de suas funções, mostrar-se, a meu ver, parcial. (O tal discurso fazia coro com o discurso oposicionista de esquerda atacando o neoliberalismo, ironizando proprietários de terras, escarnecendo a globalização...) Daí questionei, naquele contexto, como era possível um órgão público, mantido com recursos públicos, feitos da arrecadação de tributos que todos pagamos, estabelecer um preferência a um segmento da sociedade (os chamados excluídos) em detrimento de outros.
Pois S. Exª, o procurador-geral, numa carta enviada aos seus colegas integrantes do MP, dia 29/01/98, às vésperas da eleição do seu sucessor, reportou-se ao referido artigo, dizendo que ele ensejava elucidações certamente necessárias ao seu autor do que aos Colegas. (Se eram elucidações tão necessárias a mim eu deveria ter recebido também uma carta dessas.)
À guisa de elucidação, S. Exª houve por bem primeiro comparar o referido artigo com a impressão causada aos que ouvem os oradores de plantão no speakers corner, do conhecido parque londrino, que trombeteiam aos passantes disponíveis disparatadas catilinárias. Viu S. Exª vigor censório no referido texto, e que faltou aos articulista conhecimento do moderno ideário do Ministério Público, e que seu código cultural não dispõe da chave necessária para acenar as nossas relevantes questões institucionais e, portanto, desautoriza-o a sobre elas maquinar qualquer abordagem crítica. Só não se disse vítima de uma conspiração. Bem, bem, se é preciso chave para acessar as questões desse digno órgão público é porque elas, de alguma forma, estão fechadas e não transparecem, como também não transparece o moderno ideário do MP, à berlinda de nossa república democrática. Assim, o cidadão, eleitor, contribuinte, não sabe dessa instituição nada a não ser o que estabeleceram as constituições Federal e Estadual, criadas por legisladores eleitos pelo povo, cujos preceitos os agentes do órgão são obrigados a cumprir.
Mas surpreende a intolerância de S. Exª à crítica de quem tem pensamento diferente do seu; surpreende que veja vigor censório num texto que, ao invés de censurar, questionava idéias.
Paciência. São os efeitos da expressão e comunicação humanas. São os efeitos das palavras. Nas palavras e nas nuvens cada um enxerga aquilo que quer ver, poetou Helena Kolody. É o risco da interpretação, o risco que correm todos aqueles que cuja pena lhes serve à consciência.


