Acho que se encaixa bem num artigo do jornal da Semana Santa este título da vida, que se repete todos os anos na história dos cristãos e de Cristo, ''O cristão por excelência''. Cristo de Novo crucificado, ou ''Crist de nou crucificat'' era o título de uma novela de Kasansakis, um historiador russo, que nos anos sessenta era uma das poucas novelas recomedadas para seminaristas.

O argumento era demonstrar como Cristo se viesse ao mundo no século 20 seria novamente perseguido, preso, condenado e crucificado. E claro, que para escândalo de poucos, também ressuscitaria. Eis o tema da novela que cativava pela sua ficção humano divina e da enne atualidade de um Cristo histórico, porém, vivo no meio de nós, e que hoje diríamos clonado no espírito das bem-aventranças. Cristo que contiua nascendo, crescendo, sofrendo e morrendo, crucificado em cada irmão que passa fome, sofre, é violentado e desprezado.

''O que fizeste a um destes pequeninos que crêem em mim, foi a mim que o fizeste''. ''Se me perseguiram a mim também perseguiram a vocês''. ''Não é o mestre maior que o discípulo.'' Segundo motivo do artigo, a mesma história lida 30 anos depois em outro mundo, outro contexto, outra realidade, porém a mesma lição para os que acreditam no valor da cruz e daquele que deu a vida em prol da humanidade.

Era o ano de 1991. Eu ia de Guajará-Mirim a Cuiabá cruzando todo o estado de Rondônia pela estrada esburacada 364, com minha querida D-20 azul cor de Arara. De repente um enguiço na estrada, caminhões parados, carros, pessoas, curiosos, num ''stop'' improvisado. Um acidente? Um assalto? Era um simples andarilho que carregando uma enorme cruz de três metros chamava a atenção e pregava para todos os que o contemplavam.

Quis me aproximar e iniciar um diálogo com o ilustre viajante: Seu nome? Luis da Silva. Está vindo de onde e para onde vai, meu amigo? Venho de Cruzeiro do Sul e vou para Juazeiro do Norte, total já andei 1.700 kms e restam 4.500. O homem carregava uma cruz enorme que se apoiava num caixão com quatro rodas para descansar o grosso do peso. Estávamos a uma distância de 300 metros do rio Ji-Paraná, quis dar uma carona até a ponte para bater uma foto. ''Não, disse, pois eu não posso pegar carona, si não eu não cumpriria a promessa. Ando de sol a sol. Quando é de dia começo a caminhar, chega a noite, eu paro. O povo é acolhedor, dá comida, olha e escuta minha mensagem.'' E entrando em confiança eu digo que sou padre. ''Benção Padre'', pede com fé. ''É assim, que mais animado eu lhe faço esta pergunta: Qual o motivo, por que o Senhor faz esta penitência de andar uma distância de 6.000 km, quase seis meses, meio ano fora da família e sofrendo esta penitência?''

''Meu mestre, sr. Padre'', diz o homem, ''eu faço isto para que acabe a guerra do Golfo, para que os homens não se matem, chega com este que morreu por todos nós pregado na cruz''. Era o mês de janeiro, em fevereiro os jornais aunciavam o fim da guerra.

Será que a paixão de Cristo continua sendo ainda o centro da história com seus perseguidores e perseguidos, crucificados e crucificadores? Será que a novela ''Crist de nou crucificat'' não passou a ser a triste história de nosso mundo, do século primeiro, século 20 e 21 ou em outras palavras podemos ainda todos dizer: sempre é Sexta-feira Santa! Cristo continua ainda sendo crucificado!

PEDRO JORDA é padre claretiano da Paroquia Nossa Senhora da Glória no Parque Ouro Verde em Londrina

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