Crises passageiras, empresas perenes
A crise política, o inaceitável apagão, os reflexos internos de problemas econômicos internacionais, a alta do dólar e dos juros constituem um conjunto de problemas que vai afetando, em cascata, todos os setores de atividades brasileiros. Empresas revêem metas de crescimento e estudam medidas de redução de custos. Todos procuram redimensionar o tamanho do mercado, após a abrupta reversão das expectativas otimistas do final de 2000 e início de 2001, para chegar a uma equação, absolutamente empírica, sobre quanto investir em geradores de eletricidade e equipamentos, para garantir a sobrevivência em um país que, apesar de seus recursos hídricos e numerosas fontes renováveis de energia, não oferece o insumo básico da sociedade informatizada e eletrônica do século XXI.
Em momentos como esses, o planejamento, as ações de médio e longo prazo, o aporte tecnológico e as soluções inovadoras de gestão, marketing, produção e logística são totalmente esquecidos. Todos os esforços e energias concentram-se no enfrentamento da crise, sempre com medidas paliativas e de resultado prático imediato, nem sempre saudáveis em termos futuros. Emerge, nesse cenário, uma reflexão importante: repete-se, no ambiente empresarial, um antigo erro do setor público brasileiro, no qual jamais se consegue desenvolver uma ação integrada e planejada de longo prazo para a solução efetiva dos problemas nacionais.
O Estado brasileiro é um dos que mais arrecadam impostos em todo o mundo. Em contrapartida, oferece muito pouco à sociedade. Obras, inclusive de infra-estrutura, emperradas pela burocracia estatal agravam o seu custo para os contribuintes, que pagaram e muito para ter aquele benefício, mas não têm. Exemplos assim são numerosos.
Quem passa pela Avenida Doutor Arnaldo, em São Paulo, vê, há anos, no complexo do Hospital das Clínicas, o esqueleto de um gigantesco prédio, que deveria ser o Instituto da Mulher; na Marginal do Pinheiros, também na capital paulista, há outro fóssil, o edifício que abrigaria a sede da Eletropaulo, à época em que era estatal. Quanto custou para a sociedade brasileira o retardamento das operações da sucata nuclear de Angra dos Reis? Qual o ônus do atraso de obras de numerosas hidrelétricas e de modernização dos sistemas de transmissão e distribuição de energia? E a corrupção cuja presença em larga escala também é fruto da incompetência estatal de apurar, prender e julgar quanto custa para o contribuinte?
Ou seja, a obra e/ou serviço público mal planejado ou não concluído e as verbas desviadas agravam o ônus do imposto pago pela sociedade. Trata-se de situação idêntica a uma empresa que investe milhões em um equipamento e o deixa desligado durante anos. O imposto brasileiro é um investimento quase sempre sem retorno, o que o transforma em prejuízo. No caso, as consequências são gravíssimas, como se pode constatar no lamentável colapso da energia elétrica e no naufrágio de significativo contingente populacional no oceano da exclusão social.
Os homens públicos brasileiros não são capacitados para administrar. Credenciam-se, disputam e são eleitos ao exercício de cargos para os quais não têm competência, talento e vocação. Outros até reúnem esses atributos, mas administrar bem deixa de ser sua prioridade, pois passam a dar mais atenção ao jogo político, às estratégias para reeleição, à costura de alianças e a uma série de outras ações sem quaisquer reflexos positivos na gestão do Estado. As raras e honrosas exceções acabam sucumbindo à vala comum das vicissitudes estatais. Problemas como este, em menor ou maior escala, existem em todo o mundo, mas afetam de forma mais destrutiva nações que, como o Brasil, buscam emergir do subdesenvolvimento.
Na iniciativa privada, não se pode repetir esses velhos erros, os quais se acentuam nos momentos como o atual, em que a crise bate nas portas das empresas. Os profissionais do setor operacional nunca têm tempo de buscar o novo, pois estão sempre cuidando do imediato; o pessoal administrativo concentra-se nas contas a pagar, no recebimento das faturas, manutenção... e assim por diante. Todos têm suas prioridades; ninguém tem tempo de se dedicar à essência da empresa eficiente, com futuro garantido, que é a permanente busca do novo, das informações atuais, das soluções e tecnologias da eficiência e competitividade. Quanto de novidade, em termos de máquinas, equipamentos, software, processos de gestão e soluções, existe em outros países e ainda não chegou ao Brasil? Muita coisa, por incrível que possa parecer nesta era da globalização e da informação.
Não se pode admitir que, na iniciativa privada, o problema esteja na falta de talento e vocação dos gestores, como ocorre, via de regra, no setor público. Partindo-se dessa premissa, é necessário aproveitar, de forma focada, a capacidade de cada profissional, de cada executivo, para que possa apresentar altas performances. As empresas precisam, mesmo em momentos como o atual, investir no gerenciamento de informações, tarefa que não pode ser coadjuvante no rol de responsabilidades de um executivo, divisão ou departamento. A empresa desatualizada tende ao sucateamento, inclusive de idéias.
O guru norte-americano Tom Peters criador do conceito de excelência na administração afirma que os grandes administradores são o cimento de uma organização, ou seja, devem ter visão ampla para cumprir com eficiência sua missão de garantir o sucesso e sobrevivência do negócio. E, como se estivesse analisando, mesmo, o atual momento brasileiro, pondera: É verdade que há épocas de verdadeiro perigo corporativo, em que ninguém consegue fazer o que é preciso.
Mas, independentemente das turbulências e problemas conjunturais, é imprescindível fazer o necessário para garantir o futuro. Afinal, as crises passam, mas os maus hábitos e vícios administrativos persistem, corroendo mais do que as adversidades conjunturais as engrenagens das empresas. E não se deve esquecer: quanto mais eficiente, atualizada e ágil for uma empresa, mais preparada estará para enfrentar os caprichos de uma economia sempre incerta como a brasileira.
- MILTON MIRA ASSUMPÇÃO FILHO é economista, administrador de empresas, editor, empresário em São Paulo e presidente da Pearson Education do Brasil e da Makron Books





