Ary Sudan

Cada vez fica mais claro que há dois brasis dentro do Brasil: o público e o privado. O público faz todo tipo de aventura, não se preocupa com economia, com produtividade, com o respeito às leis e aos cidadãos. Pratica uma gestão que dentro dos padrões da iniciativa privada, seria considerado irresponsável e incompetente. Gasta muito e mal, não estabelece prioridade e deixa seus projetos pelo caminho, sem terminar, jogando fora bilhões e bilhões de reais. Não oferece serviço de qualidade e não estimula o setor produtivo, pelo contrário o espanta e faz com que os empreendedores se esmoreçam. Estes cansam de dar murros em pontas de facas.
Eu me arrisco a dizer que nove em cada dez crises são causadas pela administração pública, mas as contas são pagas geralmente pelo setor privado. A crise atual é prova disso, ela não é econômica, é puramente política e tudo indica que vai até 2017.
Nas crises as empresas perdem força e mercado, acumulam prejuízos enormes e muitas chegam a encerrar suas atividades. Os trabalhadores perdem postos de trabalho, têm salários reduzidos pelo mercado e, em muitos casos, são obrigados a aceitar redução de seus ganhos com a correspondente redução da jornada, para permitir que seus empregos sejam mantidos e a empresa sobreviva. Enquanto isso, no Brasil público, tudo continua normal, não há perdas de empregos, não há redução de salários, muito menos atrasos nos pagamentos e o caixa é mantido pelo aumento de impostos e suspensão de investimentos. Até aí é conhecido e o mundo privado já se acostumou a ver.
O que fere os brasileiros de um modo geral é que, em plena crise, muitos órgãos públicos insistem em brigar para obter vantagens, utilizando o instrumento da greve como arma para essas conquistas, usando a população como refém. Não tem o menor cabimento querer buscar conquistas trabalhistas, aumentos salariais e outros benefícios no mesmo instante em que a maior parte da população vive grande tensão com a ameaça ou a perda do que é mais importante, o emprego.
Da mesma forma, as empresas não suportam mais ser tão vilipendiadas, com aumentos de impostos e de preços administrados, para cobrir deficits que não criaram. Não questiono o direito desses servidores, mas sim o momento que não é apropriado. Todos sabem que as greves são feitas com tanta frequência por causa da estabilidade, da garantia do salário em dia e da certeza da impunidade. Quando retornam ao trabalho começam tudo do zero, não há serviço acumulado, o ajuste é feito em cima do cidadão que não tem direitos, só obrigações.
Quando o legislador criou a estabilidade, tenho certeza de que não a criou para ser usada dessa forma. Hoje o salário médio do setor público é bem maior que o do setor privado e, quanto às aposentadorias, nem se fala. Então, não podem ser tão urgentes as reivindicações, a ponto de não poder esperar o momento apropriado que não obrigue a população a passar por tantas privações. Deve haver outra forma de pressionar o governo para atender seus pleitos. Esse comportamento ofende o trabalhador privado e desestimula o empreendedor. Pior é que esses movimentos atingem setores fundamentais para as famílias, como a saúde, educação, previdência e segurança e para as empresas como portos, aeroportos e áreas encarregadas de licenciamentos.
Não tenho nenhuma restrição a ser público ou privado, mas é preciso ter respeito ao próximo, tratá-lo bem assim como gostaria de ser tratado e pensar um pouco mais na construção de uma sociedade produtiva, forte, dinâmica e acima de tudo justa. Tenho muitos amigos e alguns parentes servidores públicos e os respeito muito, mas precisamos crescer, evoluir, senão estaremos condenados a ser um pais subdesenvolvido, travestido de emergente.

ARY SUDAN é economista em Londrina



■ Os ar­ti­gos de­vem con­ter da­dos do au­tor e ter no má­xi­mo 3.800 ca­rac­te­res e no mí­ni­mo 1.500 ca­rac­te­res. Os ar­ti­gos pu­bli­ca­dos não re­fle­tem ne­ceas­sa­ria­men­te a opi­nião do jor­nal. E-­mail: opi­niao@fo­lha­de­lon­dri­na.com.br

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