Crise, que crise?
PUBLICAÇÃO
domingo, 20 de setembro de 1998
Renato Ferraz 
Crise, para sociólogos, antropólogos ou cientistas políticos, é uma situação tão grave e tão delicada do ponto de vista social que a ruptura seria algo iminente. Seja para o bem, seja para o mal. É, normalmente, traumática, catastrófica. Estamos nesta situação? Há algo no ar que possa pelo menos insinuar uma ruptura social, comportamental, política no Brasil? Será que o sistema legal político está se desintegrando? Que a economia brasileira chegou a um estágio de depressão? Não, não há nada disso. Felizmente.
Mas esses sobressaltos constantes da economia, que corroem moedas e derrubam as bolsas de valores - e que ameaçam faturamentos de empresas, diluem nossas chances de emprego e geralmente levam ao estouro das contas públicas - são sérios. Podemos dizer que há, neste caso, uma crise. E grave. Como também é grave a impressionante apatia da sociedade. Pelo seu comportamento, vivemos apenas uma pequena tempestade. Pelo noticiário das televisões, nem isso.
No caso do brasileiro semi-analfabeto que acorda cedo para enfrentar sua labuta diária na construção civil, por exemplo, e sequer lê jornais, crise é algo corriqueiro na sua vida. Para o trabalhador de boa formação profissional, idem. Vulgariza-se, assim, a expressão crise. O que varia, em tais casos, é a dimensão que cada um dá ao seu problema pessoal, financeiro ou familiar e que lhe impeça de tomar uma cerveja ou trocar de carro todo ano.
Continuamos crentes em Deus, votando em Fernando Henrique (no máximo, uma dissidência ideológica pró-Lula ou de protesto pró-Enéas), torcendo pelo combalido Flamengo. Continuamos dando cordiais bons-dias, achando, por exemplo, que a Justiça é justa. Vale, em certa medida, permanecermos assim - pacatos cidadãos, ciosos de nossos direitos e deveres (se bem que mais cientes dos deveres, claro). Mas não custa se indignar um pouco. Ao contrário, faz bem. Não vamos esperar que a recessão, cada vez mais visível no horizonte, atinja, como costuma dizer o deputado Delfim Netto, a parte mais sensível do ser humano: o bolso.
Vejamos, aqui, o caso da saúde pública. A lâmina cega e insensível da tesoura governamental vai jogar fora pelo menos R$ 1,2 bilhão do montante previsto no orçamento para a área. Instituições e setores vitais - como a Fiocruz, Fundação Nacional de Saúde e o Instituto Nacional do Câncer á- perderão até 30% de suas verbas. Não é à toa, portanto, que a malária, a dengue e até mesmo a febre amarela estão voltando e fazendo com que o país pareça ter regredido décadas no controle dessas epidemias.
Projeções do próprio Ministério da Saúde mostram que o câncer de colo uterino fará este ano 21 mil vítimas somente no Brasil. Desses casos, sete mil devem ser fatais. Pelo menos 4 milhões de mulheres brasileiras nunca fizeram o exame que antecipa se são ou não portadoras da doença. Pois bem, até essa miudeza orçamentária pode ser cortada.
Esse é apenas um, ínfimo talvez diante das circunstâncias, efeito da crise. Que poderia ser amenizado por um pouco de ação ou boa vontade política. Às vezes, cortar a própria carne pode ser um suicídio político. Ou uma eutanásia para a Nação.


