Crise política e oportunismo
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terça-feira, 07 de junho de 2005
A nação fica paralisada aguardando os acontecimentos 
Mais do que preocupar-se, no momento, com detalhes sobre o ''mensalão'', é cuidar para que o Brasil não entre em estado de paralisia e de inviabilidade governamental, porque já está envolto em profunda crise política. A crise se alimenta de si mesma e assim se robustece, e quando as coisas chegam a tal ponto a nação fica como que paralisada, aguardando os acontecimentos, e o Governo então passa a nada mais fazer. Agora, ao invés de governar e cuidar das políticas públicas, do exame das reivindicações nacionais e do empenho nas grandes reformas, Brasília passa a viver em função do novo escândalo a denúncia do deputado Roberto Jefferson de que o PT pagava mesada mensal de R$ 30 mil a deputados da base aliada para aprovar matérias de interesse do Planalto. Histórias de corrupção já não surpreendem ninguém, e depois da dos Correios agora vem esta, sabendo-se que não é a última. Os que apreciam colocar lenha na fogueira quando crises irrompem, chegam a falar em impeachment do presidente Lula, ou que abondone o PT, demita todos os ministros e anuncie que não concorrerá à reeleição. Naturalmente que esta é uma jogada de oportunismo, mas o grave é que o Presidente havia sido avisado desse esquema, assim como os ministros Antonio Palocci e José Dirceu e o presidente do partido, José Genoino. O dinheiro não era público, mas do PT, o que não invalida o estado de corrupção e não apaga a marca do escândalo. Se o Governo já tinha medo da CPI dos Correios, agora tem de administrar mais este ''affaire'', por ironia no momento em que se instala no Brasil o 4º Fórum Global de Combate à Corrupção, com a presença de gente de todo o mundo. As oposições, a apenas um ano antes do início da movimentação eleitoral com vistas à eleição presidencial, tiram proveito do episódio que agora irrompe, pouco preocupadas com os efeitos nocivos sobre a vida nacional, que depende da estabilidade governamental para o fluxo dos seus negócios. Correntes partidárias não alinhadas sugerem ''um governo de salvação'' até as eleições (naturalmente o atual), mas tal tem todos os ingredientes da ironia, como a sugerir que a governabilidade estaria capenga e aí chegando a mão benfazeja para supostamente salvar aquilo que resta. Não há dúvida de que o Governo Lula caminha sobre areia movediça e sem vislumbre de que algo se altere para melhor, neste ano e meio que falta do mandato. Mas é certo que a proximidade da campanha instiga os oportunistas, e nada mais fácil do que detonar o Governo, um tanto fragilizado e que já não encontra apoio popular. Em meio a uma crise já existente e que vai sendo levada em banho-maria, não é nada bom para o Brasil que um novo impacto ocorra e debilite ainda mais a credibilidade e a força política do Governo e por extensão a segurança das instituições. Neste país ainda dependente das ações da esfera pública, a nação sofre grande abalo como consequência de mais um sismo na capital da República. É sobressalto em cima de sobressalto, não em função de alguma cirurgia profunda que restabelecesse a sa© úde econômico-social, que é a mais debilitada, mas por conta de mais um escândalo ligado à corrupção. Mais perda de tempo útil que os parlamentares e o próprio Governo agora vão gastar em torno do episódio, sem mais preocupação com a discussão de projetos e o exame reformas, que assim continuarão sendo adiadas. Governo enfraqeucido e pouco operante, de um lado, rapinagem e oportunismo de outro, e a nação brasileira isolada, expectante, aguardando que a tempestade passe e, afinal, o Brasil respire serenidade e possa andar para a frente.


