Crise política e desequilíbrio da economia
José Vilmar Ferreira
É lamentável observar como se desencadeou, a partir do segundo semestre de 2013, a grave crise econômica brasileira. Sua origem está no fato de, à época, o governo ter cedido às especulações provocadas por interesses políticos e do mercado financeiro, com duras críticas aos juros baixos num momento de pressão inflacionária. Porém, mesmo com o cenário internacional negativo, nosso PIB cresceu 2,5% naquele ano e só não chegou a 3% devido à troca do mecanismo da moeda valorizada pelos juros altos.
É incompreensível que se pressione o governo a cortar gastos, inclusive de investimentos, e não se alerte o quanto os juros elevados estão onerando a dívida pública, cujo serviço em 2015 (com taxas reais de quase 6% ao ano) será 300% mais dispendioso do que em 2013 (juros reais abaixo de 2%). Para retomarmos o crescimento, seria preciso reduzir a Selic ao patamar máximo do IPCA mais 3%. Isso colocaria fim à estagnação e evitaria a fuga de capitais, pois nossas taxas continuariam mais atrativas do que as norte-americanas.
O Banco Central jamais poderia ter permitido tamanha desvalorização do Real. Deveria ter substituído parte dos contratos de Swaps pela venda de dólar no câmbio pronto, para evitar o abuso dos especuladores. Para isso, seria usada parcela das reservas cambiais. Seria coerente estabelecer um valor ideal para o dólar, de maneira que compensasse a queda dos preços médios das commodities, e impedir a alta volatilidade do câmbio, para evitar especulações. Muitos defendem a depreciação da moeda para estimular as exportações. Porém, as vendas externas, considerando manufaturados e bens de consumo, representam cerca de 5% do PIB. Se incluirmos as commodities, chegam a 13%. Portanto, deveríamos priorizar o crescimento de 100% da economia e não da parcela de 5% referente às exportações de manufaturados e bens de consumo!
É necessário, sim, proteger a indústria local do ingresso significativo de importados e proporcionar superavit comercial, mas isso deve ser feito com o Real valorizado, criando-se, em contrapartida, um subsídio em forma de crédito fiscal de até 20%. Tal benefício não geraria custos para o governo, pois seria repassada ao exportador apenas parte da receita do imposto de importação.
País de moeda fraca não tem credibilidade! É preciso lembrar da política econômica praticada entre 2003 e 2013. Ao assumir o governo, o então presidente Lula recebeu o País no 11º lugar no ranking mundial, com dívida no FMI de US$ 38 bilhões e apenas US$ 55 bilhões em reservas cambiais. A dívida líquida em relação ao PIB era de 60,4%; a inflação, de 12,5%; e os juros, de 25% ao ano. A política econômica passou, então, por grande mudança. A baixa dos juros proporcionou o aumento dos salários e do consumo, com grande geração de empregos e atração de investidores.
São necessários alguns ajustes, como vem fazendo o ministro Joaquim Levy, mas é premente retomar o modelo monetário do governo Lula, com juros baixos e Real valorizado. Isso é fundamental para o Brasil, país com economia peculiar, que requer uma política econômica independente do modelo de outras nações e condizente com sua cultura e população. Nesse contexto, sugerir a valorização de nossa moeda significa defender a queda da inflação, a redução dos juros e a volta do crescimento.
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