A recente crise instalada no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é preocupante. Embora seja um órgão estatal, o IBGE construiu um histórico de resistência às interferências governamentais e, por isso, ganhou credibilidade junto à população. É responsável pela medição e divulgação de dados importantes referentes à economia, como inflação oficial, taxa de emprego, produção industrial, crescimento populacional, entre vários outros indicadores.
Agora, é de causar estranheza que em um ano eleitoral, no qual a presidente Dilma Rousseff (PT) é candidata à reeleição e vários de seus correligionários são candidatos a cargos eletivos, que ocorra um questionamento a ponto de suspender a divulgação de uma pesquisa. O pivô da crise no IBGE foi o cancelamento da divulgação da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad) pelo Conselho Diretor do instituto. Sem avisar previamente o corpo técnico, a pesquisa foi suspensa, até janeiro de 2015, "para uma revisão na metodologia".
A decisão foi tomada após questionamentos dos senadores Gleisi Hofmann (PT-PR) e Armando Monteiro (PTB-PE) sobre a precisão das informações sobre a renda domiciliar per capita. A Pnad é base para o cálculo do rateio do Fundo de Participações dos Estados. No entanto, o que tem sido ventilado é que os números da Pnad são desfavoráveis ao governo, principalmente em um ano eleitoral. Na última quinta-feira foram divulgados dados sobre o mercado de trabalho, que apontaram que a taxa média de desemprego no Brasil ficou em 7,1% no ano passado. Por região, os números mostram distorções, como um índice apurado de 4,2% no Sul e 9,5% no Nordeste. O desemprego de jovens foi de 15% e subiu para 20% no Nordeste. Embora o mercado de trabalho tenha melhorado nos últimos anos, não se pode negar que os índices são extremamente negativos.
O problema é que especulações desse tipo podem levar ao temor de que os resultados das pesquisas passem por "maquiagem", a exemplo do que ocorre na Argentina. O que não pode ocorrer - e mais uma vez é preciso que a opinião pública fique muito atenta - é o aparelhamento político de órgãos como o IBGE. É inaceitável que continue a ocorrer interferências como a registrada nesta semana.

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