A partir de hoje os pronto-socorros dos hospitais Evangélico, Santa Casa, Infantil e Instituto do Câncer estão paralisados por tempo indeterminado. As Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) neonatais e pediátricas também deixarão de atender os pacientes. A reivindicação dos médicos é que a administração acerte os atrasados e mantenha o pagamento de incentivo para os plantões a distância, uma vez que os valores repassados pelo SUS estão defasados.

Como a categoria não aceitou a proposta da administração municipal de efetuar o pagamento no prazo de 30 dias, decidiu iniciar hoje uma paralisação. Presidente da Associação Médica de Londrina (AML) entre 2002 e 2005 e secretário de Saúde na gestão do prefeito José Roque Neto (PDT), Aparecido José Andrade já esteve dos dois lados do balcão nessa disputa e prega a união ''entre médicos, setores públicos, Câmara de Vereadores, de Deputados'' na busca por uma solução para o impasse.

Nesta entrevista, Andrade discute as causas da crise na saúde pública de Londrina e dispara: ''Não é culpa do Dr. Agajan (Bedrossian, secretário municipal de Saúde), do secretário anterior, de ninguém. A culpa é de um deficit que vem aumentando.''

Como o senhor conduziu a questão do pagamento de incentivo aos plantonistas na época em que era secretário da Saúde?
Eu continuei fazendo o pagamento que tinha sido resolvido previamente em outra gestão. Acontece que existe uma normatização do Conselho Federal de Medicina (CFM) e do Conselho Regional de Medicina (CRM) para que os médicos de plantões a distância (que ficam disponíveis para atender emergências) recebam um honorário por 24 horas. Eu não posso me ausentar da cidade, não posso beber. Eu não sei a que horas vão me chamar. Os plantonistas fixos também devem receber o honorário. Para isso, estabeleceu-se um incentivo de R$ 160,00 por 24 horas. Junto com isso foi colocado um incentivo de consultas. Isso vinha sendo praticado na gestão anterior e eu dei continuidade. É um direito do médico.

O pagamento do incentivo é correto?
Não tem nada de ilegal. Eu fico à disposição e não recebo? É mesma coisa de trabalhar quatro horas em uma empresa e não receber por isso. Não tem sentido. O modo como vai se pagar é outra coisa. Se o dinheiro não pode ser retirado do Fundo de Participação dos Municípios a prefeitura tem que arrumar outra maneira para pagar. O contrato não foi feito com o Fundo de Participação dos Municípios, foi feito com a Prefeitura.

E como resolver o problema para satisfazer os dois lados?
O médico vai querer receber. Ele não vai mais trabalhar sem ganhar. O acordo que já foi feito deveria ser mantido. Isso representa R$ 700 mil em sua totalidade por mês. O problema é que Londrina tem um deficit orçamentário que quando eu saí estava em torno de R$ 4 milhões por mês. Isso atrapalha tudo. O Fundo de Participação do Município representava, até quando eu estava lá, em torno de R$ 10,2 milhões. Nós gastávamos com toda a estrutura R$ 14 milhões. Esse deficit deve ser maior agora. Não é culpa do Dr. Agajan, do secretário anterior, de ninguém. A culpa é de um deficit que vem aumentando porque Londrina é pólo e recebe pacientes de toda a região.

Qual é a solução definitiva para o problema?
Londrina precisa equalizar o orçamento. Quando eu estava lá nós estávamos pagando com dois meses de atraso. Hoje, provavelmente, o atraso é maior. Não há prefeito, secretário da saúde que resolva sem dinheiro.

A paralisação não é uma medida radical dos médicos?
Em absoluto. O médico é um servidor como qualquer outro. Ele vai trabalhar e tem que receber. É importante dizer que não há greve porque ela só acontece quando se tem um trabalho com carteira assinada. Esse não é o caso, pois os médicos prestam serviço. Eu posso deixar de prestar serviço na hora que quiser.

O paciente, no entanto, não tem culpa de nada e é o mais prejudicado.
Os pacientes já vem sendo prejudicados com a demora no atendimento e com a falta de médico. Não tem médico para ser contratado com o valor que se paga. E não há orçamento. Agora deve haver união entre médicos, setores públicos, Câmara de Vereadores, de Deputados. Temos que ir a Brasília e dizer que Londrina precisa de R$ 5 milhões a mais por mês para a área da saúde.

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