O presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o uruguaio Enrique Iglesias, previu esta semana que a América Latina viverá ‘dois anos duros’ em consequência da crise financeira internacional, mas esclareceu que não haverá catástrofe. Durante esses ‘anos duros’ ocorrerá uma redução no crescimento econômico, que chegará a 2,5% em 1998 e entre 1% e 1,5% em 1999, adiantou. Ao falar para empresários do setor jornalístico do continente, durante a 54ª Assembléia Anual da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), Iglesias comentou que o contágio da crise ‘‘será um obstáculo no caminho, mas não vai ficar na história’’. ‘‘Pode ser que a crise se mantenha, mas não será catastrófica’’, sendo superada assim que a economia japonesa se estabilize e se mantenha o crescimento nos Estados Unidos e Europa, condições que entendeu serem possíveis. Da situação difícil que atravessam, os países latino-americanos, em sua opinião, sairão ‘‘com uma boa mescla de políticas nacionais e de apoio internacional’’. Porém, ‘‘é vital para a América Latina que os Estados Unidos não sejam também vítimas do contágio (da crise) porque isso abre as portas às coisas muito graves’’.
Quanto às políticas nacionais latino-americanas, o presidente do BID sublinhou que os países da região estão com as ‘defesas fortes’ (reservas altas, banca estabilizada, vinculação aos ciclos econômicos dos EUA e Europa, e credibilidade), graças às transformações ocorridas na última década, e à reação ‘muito boa’ diante da crise. Essa fortaleza, disse, se baseou em políticas macroeconômicas sadias, com tendência ao equilíbrio fiscal, à redução da inflação (vaticinou uma média de 10% para 1998, o que considerou ‘notável’), à reformulação do Estado (‘menor, porém mais forte’) e à abertura externa. Na América Latina se vive ‘‘uma onda de pragmatismo’’, assegurou, e elogiou as equipes econômicas dos países da região, aos quais qualificou de ‘‘estupendos’’. No futuro, de acordo com o seu ponto de vista, as tarefas serão apenas manter o equilíbrio fiscal, conter a inflação, regular a movimentação de capitais (controle de entrada e saída livres), flexibilização trabalhista e atenção à questão social.
Aparentemente, o pronunciamento do titular do BID procura transmitir um tipo de esperança com relação à própria crise e às perspectivas futuras. Todavia, é certo que o complicado é a travessia deste período. Os números, como sempre, dizem pouco sobre a realidade. É fácil antecipar o percentual de redução do crescimento econômico e não deixa de ser positiva a visão de que toda a crise não produzirá uma catástrofe social. Ocorre que este tipo de observação evidencia uma falta de sensibilidade para o que significa, de fato, esta situação que já está sendo vivenciada pelos latino-americanos. As dificuldades apresentadas pelo sr. Iglesias dão a impressão de um tipo de projeção alienada dos fatos. Todavia, o que se percebe é outra coisa: a crise é real, o desemprego é terrível e a consequência natural disto é uma quebra humana, a perda da auto-estima, a redução da esperança, o aumento da miséria.
Os tecnocratas parecem muito tranquilos quando analisam situações e fazem projeções, mesmo as mais duras. Dão a impressão de que não estão tratando de assuntos ligados à vida das pessoas. Como, porém, as dificuldades assinaladas pelo dirigente do BID envolvem milhões de pessoas que, em toda a América Latina, estão enfrentando situações terríveis, é justo esperar que os técnicos e, possivelmente, os políticos, percebam que é preciso ir além desta postura fatalista diante desta tragédia anunciada. O BID, como órgão financeiro criado para ajudar as economias latino-americanas, deve ter um papel mais importante que o de antecipar dificuldades e acenar com esperanças para o novo milênio.

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