CRISE MUNDIAL? - Exportações de produtos nacionais estão ameaçadas
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sábado, 02 de fevereiro de 2008
Fábio Cavazotti<br>Reportagem Local 
A grande dúvida da economia atual é a extensão que terá a chamada crise das hipotecas de alto risco dos Estados Unidos (subprime) sobre o resto do mundo. A exemplo de outros momentos históricos de turbulência e insegurança financeira, os países em desenvolvimento, cujos mercados acionários são compostos por empresas menos tradicionais, tendem a sofrer mais que as nações ricas.
O Brasil, que conseguiu melhorar sua posição fiscal nos últimos anos, não está imune e pode registrar redução das expectativas de vendas para outros países nos próximos meses. Além disso, a pressão sobre os preços de energia pode se traduzir em prejuízo para o cidadão comum.
Na raiz do subdesenvolvimento do Brasil, está o fato de ser o maior País católico do mundo - e sofrer restrições do capital ligado ao protestantismo. Em resumo, este é o cenário traçado pelo professor aposentado do departamento de Economia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Hermas de Melo, em entrevista à FOLHA.
Afinal, qual a origem da crise norte-americana?
Muito dinheiro foi emprestado a juros altos para pessoas que não tinham condições de pagar. Nos EUA, os trabalhadores em geral, e a classe média, também estão passando por um processo de queda da renda. O próprio aumento do petróleo faz com que os rendimentos da população caiam. Então, o pessoal que tinha financiamento não consegue pagar.
Os financiamentos eram feitos com garantias nas residências?
Exato, porque o sistema tinha liquidez, dinheiro em excesso. Esse é o grande problema do sistema financeiro: tem dinheiro em excesso. Então, querem que você pegue dinheiro emprestado de qualquer forma. Por isso, passaram a financiar construções, residências, e com a queda real do salário, com o desemprego - que inclusive é causado pela modernização tecnológica -, foi gerada uma situação de inadimplência, e esse grande volume de pessoas que não pagam levou o sistem para baixo.
Como isso afeta a economia mundial?
A dinâmica da economia no mundo é dada pela economia dos EUA - o que os norte-americanos compram, vendem, ou emprestam, tem importância absoluta. O grande problema também é que os bancos praticam um tipo de agiotagem do sistema internacional para financiar projetos ao redor do mundo que são inviáveis economicamente. As nações não têm condições de pagar o principal, apenas o juro. Então não se trata mais de uma dívida interna, mas de uma dívida ''eterna''. O Brasil está devendo para banqueiros internacionais desde a época da vinda da família imperial.
A crise nos EUA pode prejudicar a economia real ou ficará restrita ao mercado financeiro?
É essencialmente uma crise de mercado financeiro: o setor da economia real que será mais prejudicado é o da energia em geral. O petróleo tende a aumentar com a guerra no Iraque.
E para o Brasil?
O que pode ser afetado é o setor exportador. Há grande possibilidade da economia norte-americana passar a importar menos e como ela é que dá a dinâmica na maior parte das nações do mundo, isso pode afetar. Hoje, a economia está toda atrelada ao sistema de exportação.
Nesse contexto, a diversificação da exportação brasileira nos últimos anos, e a redução da dependência do mercado norte-americano - alvo de críticas de parte do empresariado -, foi benéfica para o Brasil?
Para o Brasil (risos)? Não. É bom para as grandes empresas que exportam, né? Porque o Brasil não é uma nação, o Brasil sempre foi um ''mercadão''. A única tentativa de implantar um projeto de nação foi na ditadura de Getúlio Vargas e um pouquinho no período militar. De resto, somos um mercadão. Temos matéria-prima barata, energia relativamente barata, então isso facilita a exportação e cabe a nós produzir. Um exemplo: a Vale do Rio Doce (quando estatal) era criticada por gerar pouco lucro, mas isso acontecia porque ela fornecia aço para as multinacionais exportadoras, principalmente na área de automóveis, abaixo do preço do mercado internacional, para que essas empresas pudessem competir lá fora.
O que impede efetivamente o deslanchar da economia brasileira?
Não há interesse, e um dos aspectos é religioso: o Brasil é o maior País católico do mundo. A economia está sempre atrelada com o problema de ordem religiosa. Não há perspectiva de que esteja separado, embora isso não apareça a público.
Como se dá na prática esse controle religioso?
Por meio das empresas, são elas que estão ligadas às instituições religiosas. O Vaticano, por exemplo, já controlou 60% do PIB italiano. Além disso, tem o mercado de ações. Por exemplo, as igrejas protestantes nos EUA são grandes acionistas da indústria de armamentos. Na realidade, a economia é uma guerra total: a luta armada é apena um aspecto da guerra econômica.


