Crise inoportuna
A investigação que escancarou o maior esquema de corrupção no Brasil dentro da Petrobras e culminou com a prisão de influentes empreiteiros enfrenta um momento de crise. E o impasse ocorre justamente na questão que envolve um grande número de políticos do País, que possuem o chamado foro privilegiado, ou seja, só podem ser investigados pelo Supremo Tribunal Federal. A decisão do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, de solicitar ao STF a suspensão da tomada de depoimentos em sete inquéritos que investigam políticos e operadores do chamado petrolão provocou uma queda de braço entre a Polícia Federal e a PGR. Vale lembrar que entre os investigados estão os presidentes do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), cujo partido integra a base de apoio da presidente Dilma Rousseff (PT).
A atitude de Janot causou mal-estar entre membros da PF e do Ministério Público Federal, que vinham atuando em perfeita harmonia nas investigações levadas a cabo no Paraná. A manobra revoltou delegados da PF a ponto de ser convocada uma coletiva de imprensa na última sexta-feira. O delegado da PF, Eduardo Mauat da Silva, disse que Janot estaria tolhendo as investigações da Polícia Federal e cobrou uma explicação do procurador-geral da República. Os delegados atuam em outra frente e pedem a aprovação da PEC 412/09 que garante autonomia administrativa e financeira do órgão. A categoria propõe ainda a criação de delegacias especializadas em combater a corrupção em todos os estados e no Distrito Federal, a priorização de investigações criminais de maior relevância e a criação de um Conselho Nacional de Polícia Judiciária. Um outro detalhe que preocupa é o fato de o governo federal não pagar as diárias dos policiais federais de outros estados que estão atuando nos trabalhos de investigação da Lava Jato no Paraná. O atraso já dura dois meses. Os valores das diárias atrasadas em todo o País (não somente referente aos agentes que atuam no caso Lava Jato) giram entre R$ 100 mil e R$ 200 mil.
Em resposta, o MPF informou que a suspensão determinada por Janot foi feita para manter a ordem na coleta de provas a fim de garantir o "êxito na investigação". Também garantiu que as investigações da Lava Jato no STF concernentes aos políticos seguem em curso e que Janot tem determinado a realização de diligências para esclarecer os fatos.
Em que pese a justificativa do procurador-geral, a sociedade brasileira aguarda com expectativa o andamento dos inquéritos contra parlamentares e agentes públicos envolvidos nos desvios de recursos da Petrobras. E, acima de tudo, espera que não haja blindagem a qualquer personagem que contribuiu para o esfacelamento da maior estatal brasileira.





