Crise existencial
Mergulhado em crise profunda - elegeu menos prefeitos que o nanico PSB (153 contra 112) -, o PT vive o desafio da renovação de discurso e lideranças. Os dois personagens emblemáticos do partido, Lula e Erundina, estão sendo vistos pela militância como nomes desgastados e pertencentes a um passado que já deu o que tinha que dar.
A demonstração maior da esclerose do discurso petista é a circunstância de o processo sucessório presidencial estar sendo deflagrado com uma polarização conservadora: de um lado, Fernando Henrique; de outro, Paulo Maluf - neoliberalismo versus neoliberalismo. É possível romper com o dualismo? Talvez, mas seguramente com argumentos diferentes dos produzidos até aqui pelos partidos de esquerda.
Há nomes expressivos no partido, é certo, mas não há nenhum à vista, neste momento, capaz de aglutinar apoio nas diversas correntes internas que formam o partido. Essas correntes se digladiam mais entre si que com os adversários. Algumas sequer se cumprimentam.
Lula é ainda o nome capaz de operar a façanha de uni-las (ou ao menos pacificá-las), embora já não produza o mesmo entusiasmo junto à opinião pública. Erundina não possui o mesmo trânsito junto a essa federação de sublegendas. Sua candidatura à Prefeitura de São Paulo, antes de fracassar nas urnas, foi derrotada internamente. Seu companheiro de chapa, ex-deputado Aloísio Mercadante, foi o primeiro a contestar sua proposta de governo de coalizão com forças conservadora. No PT, é quase impossível selar alianças internas, quanto mais externas. Erundina ignorou essa realidade - e dançou.
Um nome que desponta como possível liderança nacional no partido é o do prefeito de Porto Alegre, Tarso Genro, que, no entanto, teve a infelicidade de ter sido elogiado por ninguém menos que Fernando Henrique, que o considerou um interlocutor articulado e um bom administrador.
Desde então, Tarso Genro tem procurando dizer aos companheiros que não tem nada a ver com isso, que se tratou de um profundo equívoco do presidente e coisas do gênero. Também ele, para ocupar o lugar de Lula, terá que se submeter ao crivo do leque de sublegendas do partido, que vê na palavra consenso um deslavado palavrão.
Sintoma claro de escassez de lideranças com perfil ecumênico dentro do partido é a proposta do deputado Paulo Delgado (PT-MG) para que o PT adote a candidatura Itamar Franco. É claro que a proposta não tem a menor chance, mas o simples fato de ter sido formulada é prova de que algo mudou.
O PT, como se sabe, foi o único partido que se recusou a integrar o governo Itamar Franco, apesar do empenho deste em cooptá-lo, nomeando, à revelia da direção do partido, Erundina como ministra.
Mas os tempos mudam. Itamar tornou-se sinônimo de oposição a Fernando Henrique e à política neoliberal. Na falta de veículo próprio, pega-se carona. Por enquanto, para o PT, é o jeito.





