Thiago Leibante

Vivemos hoje uma situação de verdadeira barbárie no que tange à situação dos refugiados: milhares e milhares de imigrantes fugindo da guerra, miséria, perseguições, enfim, fugindo para quem sabe sobreviver. São pessoas que já não têm nada a perder, absolutamente nada.
Tal cenário coloca em xeque muitas das promessas dos apologistas da globalização; intelectuais, políticos e pensadores que pregavam que o processo de globalização criaria um mundo único, sem fronteiras, barreiras e muros, onde estaríamos cada vez mais interligados aos demais povos criando uma espécie de "aldeia global".
Mas será que de fato as fronteiras ruíram como nos foi pregado? A situação catastrófica atual mostra que não. Muitos países têm fechado suas fronteiras aéreas, marítimas e por terra para evitar que os imigrantes adentrem seus territórios. Outras nações, a contragosto e por conta da comoção mundial, acabam aceitando receber um número limitado desses refugiados de maneira urgente. É, aquele mundo que em algum momento nos foi prometido, de fato, não existe.
O que vemos são algumas fronteiras sendo derrubadas quando favorecem econômica e politicamente as nações mais ricas do globo. Acordos de livre comércio são exaltados pelos organismos internacionais e riquezas naturais, como a Amazônia, são disputadas como patrimônio do "mundo", a ponto de Al Gore, ex-candidato a assumir a Casa Branca, declarar que: "Os brasileiros pensam que a Amazônia é deles. Não é. Ela pertence a todos nós".
Ora, exaltar os aspectos positivos da mundialização em curso é muito fácil. Todos gostamos de poder adquirir mercadorias dos mais diversos cantos do planeta, nos conectar à internet e às redes sociais, acessar informações e dados dos lugares mais remotos. Tudo isso é de fato incrível! Mas a História não é feita apenas de pontos positivos.
A atual crise dos refugiados vem expor de modo bruto e cruel os danos causados por um processo de globalização que é desigual e de modo algum automático, mas antes resultado de conflitos e disputas por poder político e econômico. Nesse jogo, quem vence são aqueles capazes de impor seus interesses aos mais fracos, que estão, não por acaso, localizados na periferia do sistema.
Se hoje essas populações fogem de seus países num ato de desespero completo, é porque em algum momento da História seus territórios foram saqueados, lhes tirando riquezas naturais das mais diversas, com o fim de abastecer os países do capitalismo ocidental. Esvaziados de recursos, proliferaram a pobreza, doenças e grupos fundamentalistas que se aproveitaram de alguma forma para impor o terror (muitos patrocinados pelas nações ricas).
Caso possamos pensar que a História seja irônica, hoje as nações mais ricas estão vendo com seus próprios olhos a desgraça causada por suas políticas imperialistas e tendo que lidar, de alguma forma, com problemas que em menor ou maior proporção foram corresponsáveis.
Esses tristes e perversos eventos que temos assistido diariamente servem para nos mostrar que a globalização é exaltada somente quando convém a certos interesses, pois quando se faz necessário mostrar que pertencemos a um "único mundo", as fronteiras se erguem rapidamente. Como disse certa vez o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos: "O discurso sobre a globalização tal como a conhecemos é a história dos vencedores contada pelos próprios".

THIAGO LEIBANTE é professor de Sociologia do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP)



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