Imagem ilustrativa da imagem Crise de representatividade
| Foto: Filippo Monteforte/AFP


O referendo na Itália, que rejeitou no último dia 4 a reforma constitucional proposta pela primeiro-ministro Matteo Renzi (que anunciou sua renúncia após o resultado), contou com a atuação da primeira brasileira a ter um mandato na Câmara daquele país, a deputada ítalo-brasileira Renata Bueno. Ex-vereadora em Curitiba, ela ocupa uma das quatro cadeiras de deputados reservadas a cidadãos ítalo-americanos no parlamento italiano.

Em entrevista à FOLHA, Renata, que trabalhou pela "sim", avaliou os desdobramentos desse resultado para a Itália, a União Europeia e o Brasil, bem como observou a correlação com a consulta popular no Reino Unido que decidiu pela saída do País do bloco e os recentes resultados das eleições municipais no Brasil e presidenciais nos Estados Unidos. Para ela, é clara a crise de representatividade pela qual a política mundial passa.

Acredita que foi um voto de protesto?
Sim, foi um voto de protesto, mas não diretamente contra o governo de Matteo Renzi, mas de forma geral contra a falta de representatividade da política de hoje, visto que os cidadãos italianos não se sentem representados pelas instituições. Então é um voto de protesto, sim, mas à política de uma forma geral.

O Movimento 5 Estrelas atuou fortemente na estratégia de associar o projeto de reforma de Matteo Renzi a um ato de obediência à União Europeia. Qual a sua leitura disso e da forma como o povo italiano percebe a inserção do País na UE?
A União Europeia passa hoje por uma fase sensível depois do Brexit (saída do Reino Unido da UE) e agora é um momento de repensar, de reinventar a UE justamente para que se fortaleça e não se deixe que este efeito Brexit dê abertura para que outros países queiram deixar a UE. A Itália tem sua parcela de cidadãos que não concordam com a UE, como é o caso do Movimento 5 Estrelas, eles são guias desta proposta de deixar a UE e possuem uma política antieuropeísta, mas o cidadão italiano no geral tem muita consciência de que somos europeus. A Itália, além de ser um país fundador da UE, é um grande protagonista, porque tem papel fundamental no seu funcionamento. A tentativa feita por eles de associar a reforma à União Europeia não teve muito efeito. Nós temos isso muito claro. A UE é uma grande casa de todos os italianos e a reforma não tinha vínculo direto com isso.

Vivemos no Brasil o impacto econômico de uma série de decisões discutíveis, dentre elas o aumento insustentável do gasto público devido ao tamanho do Estado. Como isso se dá na Itália? A proposta de reduzir de 315 para 100 senadores também tinha por objetivo diminuir as despesas?
Sim. A reforma tinha como um dos principais objetivos diminuir o custo da política, pois diminuindo de 315 para 100 senadores, esses 100 senadores também não teriam salário, porque seriam já representantes com mandato dos estados. Isso daria um grande corte nos gastos da política. De qualquer maneira, os cortes já tinham sido feitos no governo de Matteo Renzi, porque foram cortados muitos ministérios e várias entidades. Então, o principal objetivo da reforma era a desburocratização do sistema, gerar uma maior agilidade no processo legislativo e celeridade no sistema de forma geral, o que levaria a uma economia política. E no Brasil não é diferente. A gente vê um Brasil que tem um Congresso Nacional com mais de 10 mil funcionários, um número altíssimo de ministérios, com um número muito grande de empregados. Então a crise política vem em decorrência disso, sim, mas é óbvio que não é o principal. No caso do Brasil, nós temos o fator da corrupção, que tem desviado um montante de dinheiro altíssimo e isso tem impactado a economia do País, mas é claro que a reforma política do Brasil é necessária e é necessário colocar nesta reforma o objetivo de gerar uma economia na política.

De que forma a comunidade ítalo-brasileira será afetada?
Minha visão é de que, se a Itália não ganha e não avança, não moderniza, a comunidade italiana no mundo também não ganha e ficamos parados no tempo como a Itália fica. Por isso, eu digo sempre, o principal objetivo do meu mandato é sempre tutelar bem a Itália para que daí, sim, a gente possa defender os interesses da comunidade italiana no mundo. Com esta rejeição da proposta da reforma, temos um não avanço, mas sem dúvida nenhuma a comunidade italiana no mundo acaba sendo pouco afetada porque não existe hoje uma relação direta dos italianos no exterior com estas necessidades que eram propostas na reforma constitucional. Inclusive, umas das perdas que a comunidade italiana no mundo teria se a reforma fosse aprovada era a perda dos seus senadores, o que aconteceria com a maioria dos cidadãos italianos dentro da própria Itália, que também perderiam a representação direta dos senadores. Com a rejeição da proposta, isso será mantido e a representação dos senadores será mantida também na circunscrição exterior. Por enquanto, a maior perda que percebo é realmente da saída do governo do Matteo Renzi, que foi um governo que se relacionou muito com a comunidade no exterior, deu muita atenção às comunidades italianas fora da Itália, aprovando, inclusive, uma emenda minha que deu um adicional de 20% ao orçamento dos consulados para poderem dar um melhor atendimento às comunidades italianas no mundo. Então, o governo Renzi deu bastante atenção, sim, aos italianos no exterior, inclusive ele e vários ministros estiveram presentes no Brasil durante seu governo.

Como você diagnostica as decisões populares de 2016 no Brasil, Estados Unidos, Reino Unido e Itália? Existe uma correlação no comportamento das massas?
Inúmeros fatores incidem sobre uma eleição e a cada ano isso tem se transformado ainda mais no mundo, justamente com a tecnologia, com a disponibilidade de informações, as pessoas hoje têm muito mais acesso e poder de decisão individual singular, ao invés de serem lideradas por alguém ou por alguma ideia. Olhando pelo Brasil, a gente passa hoje por uma crise política, e nas últimas eleições municipais já percebemos esta transformação, as pessoas se dedicaram um pouco mais para escolher melhor os seus representantes. Lembrando que os representantes são sempre um reflexo direto da população. Então, muitas vezes, existe também uma deficiência no modo de votar, no modo de escolher o voto e por isso a classe política acaba não sendo uma classe de grandíssima qualidade. A eleição do (Donald) Trump é uma eleição que foi atípica, foi uma eleição que trouxe uma figura completamente diversa, diferente daquilo que os Estados Unidos e a política em geral estão acostumados a ver com os clássicos políticos, com a política tradicional. Foi realmente uma busca de algo totalmente diferente do que foi provado e tentado até agora. Apesar de (Barack) Obama ter feito um excelente governo, de ter sido um ícone como líder mundial, isso não foi suficiente para que sua sucessora, Hilary Clinton, ganhasse as eleições, visto que já era uma figura marcada pela política tradicional. Na Europa, nós tivemos o Brexit, a Inglaterra também não esperava este resultado do referendo. As pesquisas, inclusive, não têm mais conseguido mostrar a realidade do voto e o que tem acontecido normalmente é um resultado diferente daquele que é previsto. Na Itália, nós temos agora a aproximação de uma eleição, com esta reprovação do referendo e com a convocação de uma nova eleição: teremos também uma grande transformação. E isto é um pouco da realidade mundial, que chamo de uma crise de representatividade, e penso que ela existe hoje em todo o mundo, independente do país, independente do modelo de representação. Nós temos, sim, uma espécie de falta de representatividade no sentido de que os cidadãos hoje não se sentem representados diretamente pela classe política e pelas entidades políticas. Nós precisamos reavaliar esta forma de representatividade, pois os países sempre entram em conflito, em debate sobre este ponto fundamental que é a forma de representação. A Itália passará por uma reforma da lei eleitoral antes de ir para as próximas eleições justamente por isso, porque eles estão tentando sempre se adequar um pouco ao que é este novo anseio da sociedade.

Se estivesse no lugar de Renzi, renunciaria após o resultado?
Eu me identifico muito com a política de Matteo Renzi, justamente porque ele é um jovem muito determinado no que faz. Foi chamado ao governo justamente para fazer as reformas necessárias, a fim de superar a crise que a Itália estava passando e este convite se deu por Giorgio Napolitano, ex-presidente da República, e um grupo aliado que sustentava a pessoa de Matteo Renzi e o governo formado por ele. Se eu estivesse no lugar dele, renunciaria, sim, porque o papel dele era justamente fazer as reformas; muitas foram feitas por nós, parlamentares, porém para a reforma constitucional ele fez questão de chamar a população para votar, ou seja, o referendo popular daria chance aos cidadãos de se expressarem sobre as mudanças propostas e a população se expressou contrariamente. Então, ele diz, e tem razão, que foi chamado para esta missão, mas a população diz que não quer, então o trabalho dele, a missão dele termina aí. Concordo com ele e faria a mesma coisa. Agora, existe uma fase, esta imediatamente pós-referendo, em que se reavalia o cenário político da Itália e ele já está conduzindo isso junto ao Partido Democrático, que é o seu partido, e que está dividido nesta campanha referendária. O partido democrático tem uma ala, uma parte que é contrária a Matteo Renzi, então ele precisa fazer uma limpeza, revitalizar o partido para ter força de voltar a governar ou se não outras lideranças poderão ocupar este espaço.

A concentração de poder poderia ser um efeito colateral da reforma?
O ponto da concentração de poder era um ponto frágil da proposta da reforma, pois tirar competência dos estados e trazer de volta para o governo central realmente concentra muito poder. Existe um certo entendimento por parte do governo de Matteo Renzi de que esta concentração geraria um maior controle na questão de corrupção e, por outro lado, um compartilhamento melhor desta competência entre os estados e o governo central. Porém, sem dúvida nenhuma este foi um ponto sensível, um ponto fraco em que as pessoas se concentraram com medo de que se tornasse um governo ditatorial.

Na sua visão de parlamentar, o quanto a Itália está perdendo em não fazer a reforma constitucional? Essa paralisação motivada pelo confronto entre Câmara e Senado já atingiu diretamente algum projeto seu?
A Itália perde bastante não fazendo a reforma. Historicamente, o País passou por uma espécie de sistema de corrupção muito parecido com o que está acontecendo agora no Brasil. Na Itália, foi chamada "Mani Pulite", Mãos Limpas, (a operação) que aconteceu há 20 anos e, desde então, o governo veio se reconstituindo mas sem fazer uma reforma profunda. Ao assumir, Matteo Renzi propôs reformas profundas para que a Itália retomasse o seu rumo, principalmente modernizando o sistema. Sendo um país muito conservador e apoiado em uma estrutura arcaica, a ideia de Renzi era justamente modernizar, tornar o sistema mais leve. Um exemplo: a Itália tem hoje um sistema bicameralista perfeito, único no mundo, onde Câmara dos Deputados e Senado possuem exatamente os mesmos poderes. Uma câmara normalmente é revisora da outra, nunca acontece de ter os mesmos poderes, então isso atrasa e realmente torna muito mais lento o sistema legislativo. Então ao não fazer a reforma constitucional, a Itália perde muito. Eu tive, sim, alguns projetos bloqueados por este sistema. Um deles é uma proposta de lei que dá direito às mulheres a transmitirem a cidadania aos seus maridos estrangeiros ou filhos destes casamentos nascidos antes do ano de 1948. Este é um projeto que não foi para a frente porque ficou bloqueado nesta longa tramitação entre Câmara e Senado.

Acredita que o Beppe Grillo, diante do fortalecimento do Movimento 5 Estrelas, pode retirar a Itália da zona do Euro, o chamado Italexit?
Em um eventual governo do Movimento 5 Estrelas, liderado pelo Beppe Grillo, digamos que nas próximas eleições eles ganhem, o risco de termos um Italexit é grande, porque esta é a linha guia deles. Eles são antieuropeístas declarados desde o início, inclusive contra a moeda única do Euro, então este é um grande risco, sim, e um grande problema não só para a Itália mas para toda a Europa. A Itália não pode aceitar uma situação de voltar atrás depois de ser uma das pátrias fundadoras da União Europeia.

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