Não bastassem os horrores da guerra nos Balcãs, o Ocidente se vê perplexo também com seus horrores domésticos. Semana passada, o fato marcante foi a chacina da Escola Columbine, subúrbio de Denver, no Colorado, EUA. Dois adolescentes, alunos da escola, invadiram-na, fortemente armados, de começaram a atirar contra colegas e professores. Mataram 13 pessoas e, depois, suicidaram-se.
Os assassinos suicidas eram gente de classe média alta, dentro do que isso significa para o chamado padrão norte-americano de vida. Quais os motivos que os teriam levado a cometer essa tragédia? É a pergunta cuja resposta os especialistas estão procurando. E ninguém se iluda em pensar que será uma resposta simplista. Há muitas variáveis envolvidas no episódio, cada qual com seu peso específico. Por exemplo, os jovens eram considerados ‘‘normais’’ por seus colegas, mas pertenciam a uma tal ‘‘máfia da capa preta’’, espécie de gangue com orientação neonazista. E, claro, viviam nos super-EUA, a maior potência mundial, terra da liberdade de iniciativa e do mais massacrante sistema social industrial, de consumo e de pós-consumo. Terra onde se pode adquirir armamento pesado pelo correio, e onde portar arma é algo como andar com lenço e documento.
Quem sabe a investigação não poderia começar pelo sistema familiar, indagando-se o nível de liberalidade com que os pais desses adolescentes os criavam. Uma questão absolutamente objetiva, imparcial, é saber como puderam esses pais permitir que seus filhos mantivessem, em casa, um verdadeiro paiol de material bélico? Seus filhos tinham comportamento estereotipado, nos hábitos e no vestuário, cultuavam personalidades como Adolf Hitler... Será que essas atitudes poderiam ser consideradas, por psicólogos - não por psicologistas - como sendo adequadas à adolescência? Mas até que ponto? Qual é o limite? No caso, os referidos jovens chegaram a portar até granadas de mão!
Efetivamente, fatos como esse não podem ficar circunscritos às suas próprias circunstâncias. Nem circunscritos às fronteiras do território norte-americano. Porque essa mentalidade já chegou ao Brasil, e faz tempo. Se nossos jovens ainda não estão matando por atacado, no varejo esses assassinatos de colegiais por colegiais já são banalidades da crônica policial.
As providências precisam começar de algum lugar. Verificar a quantas anda o conceito de autoridade na mentalidade social pode ser um bom ponto de partida. Sim, pois a deterioração desse conceito se inicia na prática cotidiana mais forte, mais próxima, dentro do lar, na família. Se não se vive, no grupamento familiar, o senso do respeito à autoridade - do pai, da mãe, dos avós e tios - dificilmente os integrantes dessa família conseguirão se ajustar bem na sociedade, que simplesmente não sobrevive sem a observância da hierarquia de autoridade. E sob esse aspecto, há mais de sociologia do que de teologia na máxima crística de que as pessoas devem ‘‘honrar pai e mãe’’. Da indiferença vem o grito; do grito, a agressão física.
Depois da família, deve-se verificar o senso do respeito à autoridade na escola. Esquisito isso de aluno chamar professor de ‘‘voc꒒, ‘‘profe’’ ou, pior, ‘‘tio/tia’’. Quem deflagrou esse processo de chamar professora de ‘‘tia’’ sabia que estava, ao mesmo tempo, desprofissionalizando o magistério e deprecando relações de parentesco (‘‘tia’’ é a irmã do pai ou da mãe).
Vamos a outros grupamentos sociais e notamos que nem a administração pública de segurança escapa dessa deterioração. Há muito discurso e pouco feito para resgatar o policial do limbo cívico em que se encontra. Os cidadãos não o respeitam e ele próprio não costuma se auto-respeitar.
Ia entrar na esfera das instituições políticas, mas o respeito pelo leitor (e o espaço desta coluna) me faz apenas mostrar-lhe a porta de entrada e o aviso para que não entre desprevenido.
Mais uma vez, a crise geral é o reflexo da crise individual. O conceito de autoridade, o senso de respeito à autoridade, são elementos da consciência de cada pessoa. Se cada cidadão respeitar a autoridade de cada status social, crescerá o respeito coletivo por ela. Do contrário, podemos nos preparar para outras chacinas, perpetradas por outras gangues que, desorientadas dos limites da autoridade, vão encalhar na idolatria aos autoritários de hoje e de ontem.
- JOEL SAMWAYS NETO é escritor e procurador do Estado em Curitiba

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