Criminalidade e população - Carlos Alberto Pessoa
Criminalidade e população
Carlos Alberto Pessoa
Inspirado pelo estimulante ensaio do sociólogo francês Emmanuel Todd em A visão Psiquiátrica da História (Editora Bloch, edição esgotada) o comandante da Polícia Militar do Paraná, coronel Luiz Fernando Lara, passou aos seus assessores interessante e oportuna tarefa: fundo mergulho nas séries estatísticas da corporação com o objetivo de verificar a validade da asserção de Todd feita obviamente no contexto europeu, mais especialmente na França, Alemanha e Inglaterra.
Segundo o brilhante francês, os índices de criminalidade não têm acréscimos percentuais significativos relativamente à população. Por outras palavras, o crime aumenta, sim, em números absolutos. E em consequência do aumento da população, da industrialização, da urbanização, do fim das relações tradicionais (que morrem com a passagem das pequenas comunidades para as grandes sociedades). Mas não aumenta como percentual da população.
Para ele, apoiado em dados dos países citados, o percentual de crimes ou mais exatamente a taxa de violência da sociedade se mantém mais ou menos estável, em torno de 10% da população.
Para o leitor ter idéia bem precisa: digamos que Curitiba, quando tinha 1 milhão de habitantes, sofria 100 mil violações anuais de todos os tipos; hoje, com 1,6 milhão de habitantes, a cidade seria vítima de algo em torno de 160 mil violações anuais de todos os tipos. O percentual, no entanto, manter-se-ia estável: 10%.
A preocupação do coronel Lara, repito, é verificar se a descoberta européia do estudioso francês é válida para o Paraná, particulamente para Curitiba. Que o crime aumentou, que todos os tipos de crimes aumentaram, ninguém duvida, exceto talvez o célebre Pangloss, criação de Voltaire. Resta saber se eles aumentaram percentualmente e relativamente ao total da população. A preocupação do comandante geral da PM não é acadêmica. Pelo contrário, é de ordem prática. E pode nos levar a idéias bastante claras e úteis sobre o crescentemente angustiante problema da segurança pública.
Para ficar num aspecto também pouco estudado no Brasil: é possível calcular o custo do crime para a sociedade? Ou, ainda, é possível prever o número de violações? Ou, mais interessante, é possível a partir dos dados recolhidos e comparados, estabelecer redes de policiamento preventivo?
Essas redes custariam quanto para o Erário ou melhor para a população?
A segurança não é um caso de polícia; é um problema social seriíssimo que exige estudos sérios como esse pedido pelo coronel Lara. Que certamente permitirá vôos menos cegos, ações mais lúcidas e políticas mais eficazes de prevenção e combate ao crime, à violência. Aguardamos os resultados.
- CARLOS ALBERTO PESSOA é jornalista em Curitiba





