Solucionar um crime não é tarefa das mais fáceis. Nem a série de procedimentos como colher depoimentos de várias testemunhas, observar detalhes da cena do crime e fazer a reconstituição consegue elucidar muitas vezes um caso. O Paraná possui uma técnica exclusiva no País: a hipnose forense, implantada desde 1983 pelo Instituto de Criminalística do Estado.

Segundo o psiquiatra Rui Fernando Cruz Sampaio, mais de 90% dos casos encaminhados para o laboratório de hipnose forense são solucionados, com a lembrança de rostos, placas de carro e outros detalhes da cena do crime que não eram esclarecidos em depoimento por conta de um estresse pós-traumático.

Em entrevista à FOLHA, Sampaio dá os detalhes de como funciona a técnica, fala sobre a aplicação jurídica e cita exemplos de casos solucionados com a ajuda da hipnose.

Vocês enfrentaram muita desconfiança no início por utilizar essa técnica?
Toda técnica nova cria muita expectativa sobre o funcionamento. Teve sim uma certa desconfiança. Mas depois, com os resultados que foram mostrados, houve uma boa aceitação. Tanto que hoje recebemos muitas solicitações de delegacias para ajudar na elucidação de crimes. A técnica continua sendo feita oficialmente só no Paraná. Existe interesse da Polícia Federal em se criar algo semelhante, mas ela enfrenta algumas restrições. É um trabalho reconhecido em todo o País, mas que ainda está engatinhando.

O foco da hipnose forense está nos detalhes?
Exato. Quando existe um crime, um assalto, sequestro ou estupro, normalmente a vítima fica extremamente abalada emocionalmente. Na tentativa de se defender, ela esquece detalhes que podem ajudar na investigação. Nosso objetivo é fazer com que a pessoa lembre esses detalhes. Principalmente para montar um retrato falado, com a fisionomia da pessoa, características de nariz, boca, rosto. Outro caso em que é muito utilizada a técnica é em atropelamentos, quando o condutor foge com o veículo e nenhuma testemunha presenciou. A hipnose ajuda a lembrar detalhes que identificam o veículo. É muito rápido. Às vezes a pessoa viu e acabou esquecendo, até pelo trauma causado pelo acidente.

Dos casos que foram encaminhados para o laboratório quantos foram resolvidos?
A gente recebe os pedidos das delegacias, manda os resultados de volta, mas muitas vezes não recebe a resposta disso. Dos casos que estão saindo do laboratório, em torno de 90% foi possível fazer um retrato falado que auxiliasse na descoberta da investigação.

Isso vale como prova na hora do julgamento?
Não, vale apenas para investigação. Não é a prova em si, mas a investigação vai ser baseada no que foi descoberto na hipnose. Para dar um exemplo: no caso de atropelamento por veículos, se a pessoa dá uma placa ou característica, a delegacia vai investigar e localizar o veículo, que vai passar por uma perícia para descobrir se houve uma colisão. A hipnose não é a prova, mas ajuda a chegar à prova.

Por que réus, indiciados e suspeitos não podem passar pela hipnose?
Porque na hipnose a pessoa mantém a consciência, então pode conduzir a história, mentir e omitir fatos de acordo com seus interesses. O réu, indiciado ou suspeito tem alto interesse de se defender, então vai conduzir o resultado da maneira que ele quiser. Outro motivo é a questão ética, porque você pode induzir a pessoa a fazer uma confissão. O Direito não permite que produza provas contra si.

E no caso de uma regressão, há alguma diferença?
Hipnose é um estado alterado de consciência em que você não está nem dormindo nem acordado, é um meio-termo. São centenas de técnicas utilizadas para produzir a hipnose, e a regressão é uma delas. A gente utiliza apenas nos casos em que se passou muito tempo do crime. Tivemos um caso que havia ocorrido há 14 anos e conseguimos montar um retrato falado, que foi mostrado inclusive na televisão, para localizar o assassino.

O caso do sequestro do bebê de 40 dias inventado pela mãe foi o que mais te marcou?
Aquele caso foi bem complicado. Quando ela passou pelo laboratório, estava na qualidade de vítima. Ela alegava que homens haviam passado em um veículo e levado o filho dela. Na hipnose, ela continuou mantendo a versão de um sequestro, só que a gente consegue observar o comportamento da pessoa. Você vê se ela está se contradizendo ou não, mantendo uma coerência no discurso. Chamou muito a atenção o comportamento dela. Não havia um envolvimento emocional no relato, e eu passei essas informações para o pessoal da delegacia que estava investigando. Coincidentemente, quando ela saiu da sessão de hipnose, haviam localizado o corpo da criança jogado em uma valeta e ligaram os fatos.

mockup