De tempos em tempos, a mídia noticia casos onde um ex-marido ou ex-namorado faz a ex-companheira de refém, inconformado com o fim do relacionamento. Na semana passada, mais um caso desses chocou o Brasil. Lindemberg Alves, 22 anos, manteve a ex-namorada Eloá Pimentel, de 15 anos, refém durante mais de 100 horas em um conjunto residencial na periferia de Santo André (SP).

Lindemberg não tinha antecedentes criminais, amigos o consideravam calmo e até a família de Eloá aprovava o relacionamento. No entanto, ele não aceitava o fato da ex-namorada não querer mais conversar com ele e invadiu o apartamento dela armado para forçar explicações da garota. Depois de cinco dias de negociação com a polícia, o desfecho foi trágico, resultando na morte da adolescente.

Mas o que leva pessoas aparentemente calmas a tomar atitudes extremadas como essa? Fátima Geha, médica e psicanalista, falou à FOLHA sobre o caso. Segundo ela, ''às vezes as pessoas confundem o que é ser calmo com o que é ser fechado''.

O que diferencia uma pessoa ''normal'' de uma desequilibrada?
O desenvolvimento emocional da pessoa. Uma pessoa mais evoluída vai reagir de uma maneira mais evoluída também. Ela vai pensar ''não tenho essa pessoa mas a vida continua, eu posso encontrar uma outra pessoa''.

É possível identificar sinais que demostrem que a pessoa pode vir a ter uma atitude extremada?
Os motivos são vários. Geralmente são pessoas que tiveram uma relação muito precária com os pais. Mas não dá para falar simplesmente isso ou aquilo. Você vai ter provavelmente sinais desde cedo: crianças com capacidade criativa precária, com condição de se relacionar com as pessoas de uma forma pobre.

No relacionamento entre casais, existe algum sinal, como pessoas muito ciumentas, controladoras ou extremamente doces, amorosas?
São sinais. Tem gente que diz que é amor demais. O amor não é possessivo, ele consegue abdicar. Na posse a pessoa fica escravizada. Todos nós carregamos as nossas complicações emocionais, as próprias falhas no nosso desenvolvimento. As pessoas às vezes se casam com esse lado doentio, que mantém a relação. Ela precisa se sentir muito importante. Pode ser que, por um tempo, realize esse desejo, só que o preço é caro.

O conflito começa quando a pessoa que queria se sentir importante já não tem essa necessidade e rompe?
Ou começa a perceber que o preço é alto demais, não aguenta aquilo porque o cerco vai fechando cada vez mais. Às vezes, no começo do relacionamento, o indivíduo consegue conter ou disfarçar um pouco. Mas com a intimidade ele não disfarça mais. O outro fica escravizado e começa a avaliar que aquilo não serve. Só que às vezes já está envolvido na história.

Existem idades mais propícias para que isso aflore?
É essa idade do adulto jovem, uma fase em que a pessoa começa a ser mais requisitada para a vida. Como não tem preparo emocional, ela rompe o equilíbrio que vinha vivendo.

As notícias geralmente são sobre homens que tomam essas atitudes. Mulheres não fazem isso?
A mulher tem outras formas, mas também reage dessa maneira, porque não é uma coisa que depende do sexo, mas do desenvolvimento emocional da pessoa.

A pessoa consegue raciocinar num momento de crise sobre o que é melhor para ela? No caso de Santo André, será que o sequestrador pensou que seria melhor ir preso?
A pessoa está privada da verdadeira capacidade de pensar enquanto reflexão, enquanto analisar os fatos. Ela está fazendo tudo tomada pelos seus sentimentos. Tem pessoas que nessa hora podem estar ouvindo vozes, ordenando que faça coisas.

O Lindemberg argumentou isso. Seria verdade ou uma forma de transferir a responsabilidade de seus atos para uma ''outra pessoa''?
Pode acontecer dele ouvir mesmo. Na verdade, faz parte da pessoa só que ela não se dá conta disso. Não tem condição de ter responsabilidade emocional, então projeta para fora tanto a responsabilidade como a agressividade. É como se tudo em volta estivesse pronto para agredí-lo e ele usa isso para justificar a agressão, se tornando mais agressivo ainda.

Daí que vem essas vozes?
Sim. Na verdade são pensamentos dele próprio, e ele coloca como se viesse de fora, ouve como se viesse de fora mesmo. Não daria para sabermos se ele iria se matar ou não. É provável que não teve tempo para isso.

Esse tipo de caso é mais comum do que se imagina?
Não é a coisa mais comum. Insegurança, desconfiança, todo mundo tem um pouco. Alguns têm muito e aí não aguentam. Mas é uma minoria que chega a esses desfechos.

A atenção que o caso recebeu colaborou para o que aconteceu?
Não dá para dizer isso, mas pode influenciar muito. Se a pessoa está acuada, com medo, aquele policiamento todo pode colaborar para ela ficar ainda mais acuada. Por outro lado, dá essa sensação de que ele pode tudo, que ficou poderoso. Em situações como essa, é melhor lidar de maneira mais discreta e com auxílio de profissionais da área, psiquiatras, peritos que são da área legal. Não pode ser tratado como um crime comum. São situações diferentes.

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