Cinco anos atrás o Brasil conheceu a força de uma organização criminosa. Os ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC) deixaram dezenas de mortos em São Paulo e assustaram o Brasil. Na semana passada, novos fatos mostraram que a facção continua ativa e poderosa. Ataques foram registrados em São Paulo e Santa Catarina. São novas provas da força do crime organizado.
  Força que o advogado criminalista Dálio Zippin Filho, de Curitiba, conhece bem. Membro do Conselho Penitenciário Nacional, ele afirma que em ‘‘99% dos presídios’’ as facções continuam ativas. ‘‘Hoje tem presídios que para mudar um preso de uma cela para outra, se não pedir autorização para o chefe do PCC, você não consegue fazer essa mudança. Isso também ocorre no Paranᒒ, alerta. Ele acredita ainda que é possível conter esse avanço. Para isso, no entanto, é necessário investimento pesado em inteligência e infraestrutura para as polícias.
  Cinco anos após o PCC ter mostrado sua força e sitiado o Estado de São Paulo, a ameaça ainda persiste? Por que não conseguimos conter o avanço da criminalidade organizada?
  Em 99% dos presídios o crime organizado continua ativo, o PCC, o Comando Vermelho e outros estão ativos dentro dos presídios e alguns deles ainda comandando. Hoje tem presídios que para mudar um preso de uma cela para outra, se não pedir autorização para o chefe do PCC, você não consegue fazer essa mudança. Isso também ocorre no Paraná. Há grupos organizados que, vamos dizer assim, continuam funcionando dentro dos presídios, não só no Paraná, mas dentro do Brasil todo. Só que aqui no Paraná não há uma atividade, que eu tome conhecimento, de querer subverter a ordem ou coisa que o valha.
  Por que o Estado não consegue conter o avanço do crime organizado? Falta efetivo, um trabalho de inteligência mais eficiente, armamento tão pesado quanto o dos bandidos...?
  É muito difícil descobrir quem pertence ou não pertence a uma dessas facções criminosas que agem dentro dos presídios. Alguns deles se declaram pertencentes ao PCC, dizem que são soldados do PCC, mas isso é apenas uma forma de proteção. Assim falando eles acham que estão protegidos de outras facções criminosas.
  No início do mês, seis integrantes do PCC foram resgatados de uma prisão de segurança máxima de Pedro Juan Caballero, no Paraguai. É um indicativo de que a organização criminosa não está mais respeitando nem mesmo as fronteiras nacionais?
  As nossas fronteiras aqui são muito permeáveis ao crime. O problema é que está entrando por aqui tráfico de armas e de drogas. O nosso secretário de Segurança (Reinaldo de Almeida César) fez até o lançamento de um programa em Foz do Iguaçu, com o ministro da Justiça (José Eduardo Cardozo) para intensificar as ações na fronteira.
  O grande problema é que houve um corte geral das verbas, não só da Polícia Federal, mas de toda essa organização. Tanto que os jornais noticiaram que até aquele avião não tripulado, que iria agir na fronteira, não pôde agir por falta de combustível. Inclusive, todas as ações da Polícia Federal foram reduzidas em razão desses cortes no orçamento porque o governo federal está direcionando o dinheiro todo para as obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).
  Qual é a efetiva atuação dos integrantes de organizações como o PCC no Paraná? A intensificação das ações policiais em São Paulo e nos morros cariocas está levando os criminosos a migrarem para outros Estados?
  Para você ter ideia, se você for na Rua Jesuíno Marcondes, na Praça Osório, pela primeira vez apareceu fora dos presídios aquela sigla do PCC pichada num muro. Também estava pichado o número 1533, que faz analogia ao PCC. Isso é sinal que o pessoal do PCC age lá dentro e aqui do lado de fora também. Houve uma época, há bem pouco tempo, que os integrantes do PCC faziam as pessoas aqui de fora contribuírem, inclusive para pagarem advogados para fazer a defesa dos soldados do PCC.
  Mas são muito mais nefastas para o Brasil determinadas atividades políticas, como desvios de verbas da merenda escolar, da saúde pública, do que o próprio crime organizado. Se você for olhar, em termos de prejuízo, o maior não é provocado pelo crime organizado, mas por agentes públicos.
  Os governos mudaram as estratégias de combate ao crime organizado com o intuito de reduzir a influência dessas facções nos presídios do País?
  Acho que estão trabalhando de uma forma igual e que não tem dado resultado. Quando é feita uma migração de presos pertencentes ao PCC ou a qualquer outro grupo criminoso de uma penitenciária para outra, você acaba disseminando esta política do crime organizado.
  Então não adianta. Se não houver políticas públicas específicas, o crime organizado vai continuar funcionando. O governo do Estado está empenhado em reduzir a entrada de armas e de drogas no Paraná. Mas se não houver apoio do governo federal vai ficar muito difícil combatermos o crime organizado não só dentro do presídio, mas fora também.
  Quais políticas públicas os governos devem adotar para conter o avanço das facções?
  Tem que não só equipar todas as polícias, mas também promover ações unificadas. O que acontece hoje é que temos quatro ou cinco polícias, cada uma agindo de um lado, o que acaba não dando o resultado esperado. Às vezes, dão um resultado midiático, mas só aquilo. Então vamos melhorar as polícias Civil e Militar, abrir novos concursos, providenciar equipamentos e daí por diante. Se não houver investimento em dinheiro não vamos conseguir nada.
  É importante um trabalho de inteligência. E mais, isso não pode ser um trabalho só do governo. As entidades de classe têm que atuar. Esse é um problema de todos nós. Estamos largando, dizendo que a Constituição diz que a segurança é um direito. Tudo bem. Mas se não ajudarmos o governo nessa crise vamos continuar sofrendo as consequências. Hoje não temos segurança nenhuma.
  As condições sub-humanas às quais são submetidos os detentos proporcionou um ambiente favorável ao crescimento das organizações criminosas. Por que o Brasil não consegue solucionar a crise do sistema carcerário?
  Essa é uma das origens. Falta advogado. Na Penitenciária Central do Estado tem 1.540 presos e um advogado para atender todo esse pessoal. Fica inviável. A ideia é aproveitar a nova lei sobre prisão preventiva e prisão em flagrante, que vai possibilitar o esvaziamento quase que completo das delegacias de polícia. A prisão provisória será só para casos extremos. Enquanto não tiver uma condenação em definitivo, não pode a pessoa ficar presa, a não ser em caso de extrema periculosidade.
  O sistema penitenciário está com quase 16 mil pessoas aqui no Paraná. No Brasil, são 505 mil. O governo tem que entender que um preso hoje custa entre R$ 2,5 mil e R$ 3,5 mil por mês. E ele vai sair pior do que entrou. É muito mais barato investir esse dinheiro em escolas e saúde porque assim vamos evitar que o pessoal adentre no sistema penitenciário.

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