O crescimento acelerado do crime organizado nos grandes centros urbanos brasileiros é o contraponto da exclusão social, constituindo um mecanismo perverso pelo qual uma parcela dos excluídos apropria-se de um fluxo de renda proveniente das elites. O narcotráfico é o exemplo limite desta situação, possuindo ainda a capacidade de gerar um autêntico Estado paralelo, o qual imbrica-se com o Estado oficial, corrompendo-o. Na Colômbia, esse processo atingiu dimensões nacionais. No Brasil, ainda é um fenômeno socialmente localizado, com destque para as favelas do Rio de Janeiro.
Os líderes do narcotráfico procuram cooptar as populações de baixa renda, tanto legitimando parcialmente suas ações através de mecanismos assistencialistas - cujo efeito junto aos moradores é diretamente proporcional à sua sensação de abandono pelo Poder Público - quanto enquadrando-as através de um sistema coercitivo que também se vale da ineficiência da ação estatal para se estabelecer sem que se lhe oponha resistência. As crianças das favelas brasileiras são quase que naturalmente levadas a eleger os líderes do narcotráfico como ídolos que ditam padrões de comportamento a serem invejados e, se possível, imitados. Tais líderes simbolizam o sucesso material, tendo como contraponto no imaginário dessas crianças o fracasso social e a miséria que o mundo do trabalho socialmente aceito, em atividades econômicas formais ou informais, reserva à mão-de-obra de baixa qualificação.
A programação das emissoras de televisão cria, tanto para a classe média quanto para os pobres, a ilusão de que o Brasil é um país em que a classe média constitui a maioria da população, pois, uma vez que é ela que consome os produtos anunciados pelos patrocinadores, torna-se forçosamente a classe social mais presente nos programas e novelas de televisão (nos quais os pobres, quando aparecem, são tratados como minorias). Ao mesmo tempo, a televisão gera, entre os pobres, inveja e ressentimento em relação àqueles cuja renda viabiliza a aquisição dos bens de consumo apresentados nas mensagens publicitárias. Graças à televisão, as massas empobrecidas são compreendidas pela classe média como elementos minoritários e especialmente deslocados.
O sistema político brasileiro também contribui para a perpetuação da exclusão social. Se é verdade que os eleitores pobres definem o resultado das eleições para o Poder Executivo, isto é menos verdadeiro no que tange ao Legislativo, em consequência de uma tradição de muito menor preocupação - e, portanto, de maior percentagem de votos brancos e nulos - do eleitor de baixa renda para com as eleições dos membros deste Poder, cuja ação constitui um conceito muito menos compreensível para as comunidades pobres do que a dos mandatários do Poder Executivo. Mesmo com relação a este, a participação dos pobres corresponde basicamente a uma escolha, quando da eleição, entre plataformas de governo que é determinada, quase que de forma absoluta, pelo diferencial de poder econômico aplicado, direta ou indiretamente, na campanha de cada candidato (não obstante todos os mecanismos legais de controle desse montante) e pelas posições assumidas pelas grandes emissoras de televisão, de forma explícita ou não, de apoio ou repúdio a determinado candidato.
Passado o momento da eleição e durante todo o período do mandato, não há outra interação dos eleitores de baixa renda com o Poder Executivo. De fato, essa interação pressupõe, por parte do grupo social interessado em realizá-la, a capacidade de formular suas demandas através de um canal institucional. A população de baixa renda termina, assim, por só fazer ouvir pelo Poder Executivo mediante explosões sociais localizadas que, no máximo, acabam resultando em alguma ação estatal paliativa e temporária. No que tange ao Poder Legislativo, este tem uma tendência evidente de se nortear pelos grupos organizados, capazes de praticar ‘lobbies’ junto aos parlamentares, o que, uma vez mais, aliena a população de baixa renda.
Diante da exclusão econômica e social a que estão submetidas as populações pobres dos grandes centros urbanos, aliada à ausência da ação do Estado e a um mecanismo perverso que leva à introjeção, por tais populações, de aspirações consumistas somente acessíveis à classe média e aos ricos, não deve causar surpresa a penetração do crime organizado em tais comunidades. Este cumpre múltiplas funções: substitui o Poder Público, introduzindo mecanismos assistenciais e fazendo as vezes de uma polícia paralela; fornece modelos de comportamento, aproveitando-se da possibilidade concreta de o traficante exibir a posse dos símbolos de ‘status’ da nossa sociedade; organiza a vida comunitária; aplica penas por desvios de conduta etc.
Tais ações, associadas ao uso da força, legitimam em parte um sistema de dominação no qual se garantem a colaboração dos moradores - principalmente em relação ao conflito permanente com o aparato policial - e o recrutamento de parte dos jovens da comunidade para comporem as hostes a serviço dessa autêntica burguesia paralela. Todo esse quadro é encontrado em vários pontos do país e é particularmente dramático no Rio de Janeiro.
A classe média tende a reagir ao crime organizado a partir de uma visão de mundo que escamoteia o seu caráter de classe social minoritária no conjunto da população brasileira. Normalmente, a questão é percebida apenas sob o ângulo policial; raras são as vozes que clamam por reformas estruturais que dêem aos pobres os requisitos mínimos de cidadania exigidos (do Poder Público) pela classe média para os seus próprios membros. Na sua obsessão de enquadrar pela força a irrupção do crime organizado em meio às comunidades de baixa renda, a classe média tem-se mostrado simpática ou, na melhor das hipóteses, indiferente a atos de barbárie tais como o extermínio de menores de rua, a execução sumária de criminosos e as rajadas de metralhadora disparadas em todas as direções quando das batidas policiais em favelas, sem falar no apoio à adoção institucional da pena de morte.
É preciso que todos reconheçam que os pobres constituem a maioria da população brasileira e que muitos deles não estão mais assistindo passivamente à fruição consumista das elites; estão, ao contrário, vinculando-se cada vez mais a atividades que podem corroer todo o tecido social, levando-o à ruptura, o que será um desgaste para a nação como um todo.

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