Imagem ilustrativa da imagem CRIME ORGANIZADO - Tráfico caipira
| Foto: Sérgio Isso/Divulgação



Após analisar mais de 80 mil páginas de documentos e fazer pelo menos 70 entrevistas, o jornalista Allan de Abreu, repórter especial do "Diário da Região", de São José do Rio Preto, no interior paulista, produziu um tratado sobre o tráfico de cocaína no Brasil. Em 800 páginas de "Cocaína: A Rota Caipira", o repórter investigativo nos traz um apanhado de parte dos papéis sigilosos e de entrevistas com juízes, promotores e policiais federais a que teve acesso, como forma de demonstrar o caminho da cocaína no Brasil e quem realmente se beneficia com o tráfico.

Abreu tem uma ligação intrínseca com Londrina: é formado em jornalismo pela Universidade Estadual de Londrina (UEL) e tem mestrado em Teoria da Literatura pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Repórter investigativo dos bons, Abreu já sofreu a pressão do poder ao ter ameaçado, por duas vezes, o sigilo de fontes, uma prerrogativa fundamental para o exercício do jornalismo. Chegou a ser indicado duas vezes – em 2011, quando divulgou escutas telefônicas relacionadas a um esquema de corrupção dentro do Ministério do Trabalho de Rio Preto, e em 2014, ao ser acusado pela Polícia Civil de divulgar escutas relacionadas a um sequestro ocorrido na cidade.

Em nenhum dos casos, o jornalista cedeu e entregou suas fontes. Isso fortaleceu sua credibilidade e permitiu juntar documentos aos quais a maioria dos brasileiros jamais teria acesso. O livro chegou às bancas no dia 24 de abril. Saiba mais sobre a obra nesta entrevista à FOLHA.

Como surgiu essa ideia de fazer um livro sobre o tráfico de cocaína? Li algo sobre um desafio de que a obra teria de parar em pé sozinha, é verdade?
Eu lido com cobertura de narcotráfico há muito tempo. Desde que vim para São José do Rio Preto, há 11 anos, já trabalho com temas ligados a isso. No "Bom Dia" [rede de jornais do interior paulista], fui para a fronteira com o Paraguai fazer reportagem sobre carros roubados no interior que lá eram trocados por droga. Depois fui para a fronteira com a Bolívia, também pelo jornal; passei a acompanhar grandes operações da Polícia Federal aqui na região de Rio Preto contra o tráfico e comecei a pensar na possibilidade de sistematizar isso num livro, porque é um assunto extremamente complexo, com diversos personagens, inúmeras estratégias, muitas histórias distintas que uma reportagem simples jamais comportaria. Então, em janeiro de 2012, tomei a decisão de produzir um livro sobre narcotráfico. Uns meses depois, em contato com o Domingos Meirelles [jornalista atualmente na TV Record], que faz o prefácio do meu livro, ele me disse "Seu livro tem que parar em pé, porque livro, para ser bom, tem que parar em pé". E eu fiquei com aquilo na minha cabeça. Durante cinco anos, comecei a reunir informações, fazer muitas viagens, muitas entrevistas, para coletar dados e sistematizá-los em forma de texto, de modo que virou um livro de 800 páginas. Então, ele para em pé (risos). E, olha, tem mais coisas que ficaram de fora, ficaria inviável.

Tudo que você escreve é baseado em documentos e entrevistas. Qual o volume de documentos arquivados?
Tudo está documentado, porque eu sempre tive consciência que o assunto é sensível e, para evitar processos ou algum dissabor, tudo que eu escrevi está sustentado por 80 mil páginas de documentos. Eu li, sistematizei e filtrei isso tudo. São, via de regra, inquéritos e processos judiciais, além de relatórios sigilosos da Polícia Federal que colhi ao longo dos anos e as mais de 70 entrevistas, principalmente de policiais, advogados, juízes, promotores e cocaleiros. A maioria falou em off, mas acredito que o fato de eu ter sido indiciado no ano anterior por me negar a revelar uma fonte me ajudou muito. Muitas pessoas já me conheciam de nome e sabiam que podiam confiar em mim, porque sabiam que não abriria o off. Isso ajudou bastante nessa tarefa de convencer essas pessoas, que eu nunca tinha visto na vida, a me fornecer documentos. A maior parte deles tramita em segredo de Justiça. Tem muita interceptação telefônica. Eu uso muito diálogo de interceptações no livro, o uso de diálogo real dá um dinamismo interessante para a história.

O seu livro trata da rota caipira. Qual é o mapa que desenhou?
A rota caipira não é de agora. Esse termo é usado pelo menos desde a década de 1990 pela mídia para se referir ao interior paulista, o Triângulo Mineiro e até o Norte do Paraná como entreposto para a droga, principalmente cocaína e maconha, que saem da Bolívia e Paraguai e vão até os mercados consumidores principais, que são Rio de Janeiro e São Paulo, sem contar a exportação pelo Porto de Santos. Então, essa droga passa, necessariamente, por aqui, é um cenário estratégico para o narcotráfico. Essa é a rota caipira.

Mas para a rota caipira você conversou desde o produtor...
Eu tinha na cabeça que eu tinha de conhecer o problema na origem. A gente conhece o combate aqui, mas não sabemos como tudo isso se origina. Então, em 2013, eu fui para Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, com a ajuda da Polícia Federal brasileira, em contato com a polícia boliviana. Fomos até a região do Chapare, onde se planta folha de coca, destinada à produção do chá de coca. Isso é legalizado no país, mas parte da produção é desviada e acaba indo para a indústria da cocaína. E os plantadores são pessoas miseráveis. O produtor da matéria-prima da droga não fica com nada. Ele vende a produção a cada três meses, por cerca de 300 dólares a safra, ou seja, cerca de R$ 1 mil a cada trimestre. É uma miséria. Não existe um grande latifúndio de coca, são pequenas produções, de cerca de um hectare, um pequeno retângulo onde ele planta um arbusto de baixa estatura e ali ele vive, em casebres miseráveis.

E quem ganha dinheiro com a coca no Brasil?
Existem traficantes poderosíssimos que operam no atacado do tráfico aqui no Brasil.

Poderosíssimos em que sentido?
No sentido financeiro - inclusive, o crime organizado é poderoso financeiramente, essas quadrilhas são muito ricas porque a cocaína é a mercadoria mais lucrativa do planeta. E isso eu falo com toda a certeza porque nenhuma outra permite um lucro tão grande entre a origem e o destino dela. O quilo da cocaína sai dos países produtores valendo um pouco menos de mil dólares, chega na fronteira valendo três mil dólares – ou seja, já triplicou –; chega a São Paulo e ao Rio de Janeiro a dez ou doze mil dólares o quilo e se for exportado para a Europa, chega a 50 mil dólares o quilo. Nenhuma outra mercadoria tem esse lucro, nem ouro, nem diamante. Então, é isso que atrai tanto traficante. Ele não é usuário de droga, ele encara o tráfico como um business, é um negócio, uma atividade na qual ele costuma cooptar policiais, entra na política. O crime organizado tem essa característica, de se infiltrar no poder repressivo também.

E qual a representatividade do cartel de drogas no poder político hoje? Vimos recentemente o helicóptero do [senador mineiro Zezé] Perrela, cheio de cocaína, mas a droga não era dele...
O narcotráfico está muito presente na política. Eu cito muitos exemplos no livro de relações suspeitosíssimas entre grandes traficantes e deputados, relações estranhas com ministros do Supremo [Tribunal Federal], tem casos históricos de deputado federal envolvido diretamente com o tráfico, ministros do STJ [Superior Tribunal de Justiça]. O tráfico, como já disse, costuma cooptar os órgãos repressivos porque, para ele, é interessante, inclusive, dominar aqueles que têm a tarefa de combater o tráfico, até para saber os passos que darão.

A produção é só na Bolívia? A Colômbia não produz?
A cocaína é produzida na Colômbia, na Bolívia e no Peru. Ela é originada dos Andes, mas a planta foi adaptada para o altiplano e é de lá que se desvia para o tráfico. Mas a Colômbia é onde tem o know-how maior sobre a produção, é o país mais rico e, por conta dos cartéis de droga lá, de Pablo Escobar etc, eles têm um conhecimento muito maior e, inclusive, ensinam para os bolivianos como produzir cocaína.

E a droga vem para cá entrando, principalmente, pela Bolívia e Paraguai. É mais comum chegar por vias terrestres ou aérea?
Dos dois modos. Acredito que seja mais terrestre, escondido em fundos falsos de caminhões, porque é o meio mais barato, apesar de o risco de ser parado no percurso ser maior. Com avião, esse risco não existe, a não ser a abordagem da aeronave no canavial. Geralmente, descem em pistas clandestinas em canaviais paulistas. Essa é uma cena bastante comum, principalmente nas regiões de São José do Rio Preto e Ribeirão Preto, no norte de São Paulo. Mas também tem nas regiões de Bauru, Piracicaba e Sorocaba, onde a produção de cana-de-açúcar é muito forte. O canavial é perfeito: quando a cana está baixa, o policial não consegue abordar o avião porque os traficantes veem movimentação no entorno e, quando está alta, a cana esconde o avião e a caminhonete que vai receber a carga. Porque, nesta operação, o avião desce e, em dois a três minutos, o carregamento já está inteiro na caminhonete. A aeronave nem desliga o motor e já decola em menos de cinco minutos.

Você concorda com essa visão de que o tráfico só existe porque o usuário financia? E a guerra contra o tráfico vai ser vencida um dia?
Eu vou começar pela segunda parte. Do modo como está, a guerra ao tráfico está fadada a ser inglória e inútil, porque não adianta o Brasil investir tanto dinheiro em estrutura de combate ao tráfico – e o que o Brasil investe ainda é pouco, porque nosso trabalho de fiscalização fronteiriça é muito ruim –, mas não adianta todo o investimento porque não há cooperação dos países vizinhos, onde o problema surge. São países muito pobres e dependentes economicamente da droga, que representa um dividendo para países como Paraguai e Bolívia, que são corrompidos de alto a baixo pelo narcotráfico, em escala muito maior até que o Brasil. Então, sou um pouco pessimista em relação a isso. Acho que essa guerra às drogas vai continuar por algum tempo trazendo um trabalho de "enxugar gelo". Em relação ao usuário, eu sou contra a descriminalização. Foi uma conclusão que cheguei nas minhas pesquisas porque o País não tem um sistema de saúde pública adequado para atender esse paciente dependente químico, nem atualmente e muito menos com uma eventual descriminalização. Além disso, o tráfico não acaba com a descriminalização, pelo contrário. Estava lendo uma reportagem há um tempo sobre o Estado de Colúmbia, nos Estados Unidos, que descriminalizou a maconha. O que os cartéis mexicanos que atuam nos EUA passaram a fazer? Começaram a produzir no próprio Estado da Colúmbia vendendo a maconha por um preço muito mais baixo que a legalizada, porque eles não pagam imposto, já que é uma atividade criminosa. Então, acabou fortalecendo o tráfico da maconha naquela região. Então, as pessoas dizem: "Ah, o Uruguai descriminalizou", mas não se pode comparar a realidade do Uruguai, que é um país muito pequeno, com a do Brasil, que é continental, uma sociedade muito mais complexa.

Essa guerra armada também não está dando resultado e o que nós vemos são pobres e jovens morrendo, cada vez mais...
Sim, o tráfico de drogas aumentou muito, ano após ano, e as polícias estão desaparelhadas para o combate, sobretudo a Polícia Civil. Não sei qual a realidade do Paraná, mas no Estado de São Paulo falta efetivo e estrutura mínima. E a Polícia Federal também tem um efetivo pequeno e tem sido deslocada nos últimos anos para atuar na Lava Jato. O problema é que o tráfico continua. Todo dia, um avião desce com droga no Estado de São Paulo e não tem havido muitas apreensões.

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