CRIME NA INTERNET - Boatos via email infernizam empresas e famosos
No ritmo irrefreável da circulação de dados da internet, qualquer boato se espalha de forma tão contagiosa que o duvidoso adquire o status de verdade pronta e acabada, independentemente se falta ou não credibilidade ao autor da informação. Nos últimos anos, empresas, artistas famosos e autoridades se viram tragados pelo turbilhão desse processo, alvos dos chamados hoaxes - do inglês, embuste, trotes.
São os boatos falsos que circulam pela rede de computadores via email. Até que o envolvido se disponha a vir a público desmentir a informação, o estrago já está feito. Em Londrina, a vítima mais recente foi o Shopping Catuaí, localizado na zona sul. Desde o começo de setembro, milhares de londrinenses receberam em suas caixas de mensagens um email que relatava que um casal de namorados foi assaltado no cinema do estabelecimento.
Na ocorrência, um grupo de rapazes teria obrigado as vítimas a retirar dinheiro nos caixas eletrônicos, a comprar tênis para os criminosos e a estourar o limite do cartão de crédito na aquisição de outros bens. Os assaltantes teriam fugido no carro do casal e abandonado os namorados à beira de uma estrada de terra. O crime não teria sido registrado pelo circuito interno de vídeo, que não estaria funcionando no dia.
Seria arrepiante se fosse verdade. ''Este incidente nunca aconteceu'', explica Ruth Moraes, gerente geral dos Cines Catuaí. ''Foi algo feito para nos prejudicar. É um absurdo que a internet seja utilizada dessa maneira''. Segundo a assessoria de imprensa do estabelecimento, pelo menos outros quatro shoppings em todo o Brasil (um em Florianópolis) foram prejudicados com boatos do tipo via internet. A direção do shopping relata que recebeu estas mensagens e que as redações são idênticas à do email relativo ao Catuaí.
Com este caso, Londrina começa a ter um pequeno histórico na área de hoaxes. Após as eleições do ano passado, começaram a circular mensagens falsas dando conta de que o deputado federal Luiz Carlos Hauly (PSDB) estaria com câncer. A simples menção do fato irrita o político. ''Isso foi uma sem-vergonhice, uma falta de ética. Quem mexe com famílias e empresas desse jeito só podem ser pessoas deploráveis'', acusa o deputado.
Em nível nacional, tornaram-se notórios os hoaxes de que estudantes norte-americanos estariam utilizando nas aulas de Geografia mapas que informavam que a Amazônia e o Pantanal eram áreas de controle internacional, e não mais parte do território brasileiro, e o de uma empresa de telefonia que se viu em maus lençóis devido a um email falso que alardeava uma promoção que dava celulares de graça.
Segundo informações da Polícia Civil, a propagação de boatos danosos à imagem de pessoas físicas e jurídicas pode ser encarada como contravenção penal de perturbação da tranquilidade, que pode gerar sentença de três meses a um ano de reclusão. O responsável administrativo e financeiro da Internet By Sercomtel, João Arcoleze, diagnostica que os hoaxes são muitas vezes gerados por interesses políticos e de mercado.
Ele cita que as táticas de proliferação dos boatos se tornam a cada dia mais eficientes, acompanhando o passo da própria evolução da internet. ''Existem vírus de propagação de email que pegam os endereços da lista do usuário e repassam a mensagem para todos estes nomes. Alguns vírus mais inteligentes são capazes de arranjar endereços naquelas mensagens enviadas em massa, onde todos os nomes das pessoas para quem foi enviado o email aparecem no topo'', explica Arcoleze.
A favor do propagador dos hoaxes, está a dificuldade de rastreamento do autor da mensagem original. ''Quando se chega até o provedor de onde saiu pela primeira vez a informação, a conta só pode ser aberta sob ordem judicial. Além disso, com tantos provedores de email gratuitos, mesmo quando a investigação consegue chegar até o cadastro, descobre-se que o dono da conta é um 'laranja', alguém que não tem nada a ver com a história ou um nome falso'', afirma Arcoleze.
Para estas situações de difícil controle e muita repercussão, o responsável recomenda que empresas ou pessoas prejudicadas pela boataria virtual busquem desmentir as informações falsas procurando a imprensa. ''É o modo mais fácil'', diz ele. Para quem recebe um email do tipo, o conselho clichê ainda é o melhor: não acredite em tudo que lê.





