Crime e consequência
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 14 de novembro de 2002
Walmor Macarini 
Tão ruim quanto um crime é o seu impacto sobre a opinião pública e a onda de ira popular que se espalha, criando uma atmosfera tão densa que acaba por contagiar negativamente a todos. Por estes dias viveu-se a repercussão do assassinato planejado pela filha contra os pais, e a postura das pessoas ante o fato é sempre aquela. Os programas de rádio e televisão especializados em exaltar desgraças humanas têm seu momento de plenitude. E, adicionando ingredientes para dar mais tempero à tragédia, recorrem ao vocabulário mais sinistro possível e assumem postura de julgadores, sugerindo as penas e castigos que devem ser dados aos assassinos, com todo um derramamento verbal de ódio e vingança.
Os apreciadores ficam ávidos e robustecem os índices de audiência desses programas, que, estimulados, mais requinte vão dando aos crimes, e assim está montado o espetáculo. Natural que um episódio como o que ocorreu na semana passada abala a todos. Mas muitos se valem desses acontecimentos e deles tiram proveito, potencializando a corrente de negatividade que esses crimes já carregam em si mesmos. A maioria das pessoas fala dessas desventuras com ódio e desejo de punição. Fossem os autores de crimes lançados à arena e entregues à própria sorte, seriam linchados pelas multidões.
A ira, a sede de vingança e também o desejo de justiciamento estão presentes na maioria das pessoas e se manifestam nessas horas. Só o fato de irar-se, julgar e condenar, é também uma forma de transgressão, o que também faz condenáveis todos os que assim se comportam. E não estão imunes de culpa, sobretudo, os que propiciam o cometimento de um atentado, como os que produzem e traficam drogas e levam pessoas a gestos tresloucados. Os pais que rejeitam certos namoros dos filhos - fato muito comum e que foi o caso do drama em questão - geram com isso ódios extremos e têm, também, grande parcela de culpa pelo que venha a acontecer.
Emanações negativas, frequentes na vida diária das pessoas, vão formando nuvens negras e uma carga vibratória que, em certo momento, explode, manifestando-se em forma de conflitos humanos, tragédias e crimes. Os já propensos, porque motivados por alguma razão, acabam sendo os captadores dessas descargas, qual pára-raios, justamente porque mais receptivos e vulneráveis. Todos, então, que cooperarem indiretamente para o reforço dessas corrente, são coniventes. Incumbe observar os delitos humanos com responsabilidade e afastar pré-julgamento, sentimento de ódio e desejo de punição. Em momentos assim, melhor é dirigir mentalizações de harmonia, sobre vítimas e algozes, estes também vítimas.
Imaginemos nossos filhos no lugar desses meninos. Certamente não desejaríamos ver a humanidade inteira justiçando-os. Não sejamos, então, iguais àqueles que caem no infortúnio de cometer um crime. Há que haver compaixão por eles. Melhor do que reunir-se em rodas de julgamento, emitindo aleatoriamente pareceres e desejos odiosos de severo castigo, seria promover um círculo de oração por essas infortunadas pessoas - vítimas e agressores. Com atos assim, dispersaríamos camadas de nuvens densas e contribuiríamos para o ressurgimento da luz e para a purificação da atmosfera em nosso redor, tornando o ambiente menos propício à ocorrência de novas tragédias.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina


