Crime desafia São Paulo
A mídia noticiou recentemente alguns dados sobre criminalidade nas grandes cidades brasileiras que, combinados com outros indicadores econômicos, poderão, infelizmente, tirar o Estado de São Paulo e, por extensão, o Brasil, da lista das prioridades dos investimentos estrangeiros no setor produtivo. Trata-se da taxa de homicídios registrada no município de São Paulo que, em 1999, superou em 31% a da cidade do Rio de Janeiro. Naquele ano, a capital paulistana atingiu a marca de 59 vítimas de homicídios por cem mil habitantes, enquanto no Rio ela foi de 45 por cem mil. Um triste recorde para os paulistanos.
Trocando em miúdos, isso significa que a chance de um carioca morrer, vítima de homicídio, já é menor do que a de um paulistano. Embora não seja especialista nesse assunto, não é difícil tirar conclusões e projetar cenários para o futuro. A primeira coisa que se conclui disso tudo é que São Paulo está perdendo a guerra contra a violência urbana e o crime organizado. Se essa tendência se mantiver ao longo dos próximos anos, as consequências para a capital paulistana, o Estado, o País, o Mercosul e toda a América Latina serão simplesmente desastrosas.
O raciocínio a ser desenvolvido é simples. Durante a década de 50, o Estado de São Paulo começou a construir um imenso e diversificado parque industrial, o qual aos poucos foi se estendendo para o Paraná, Minas Gerais, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Uma segunda onda de industrialização teve origem nesses Estados e acabou por atingir, de forma desigual, o restante do País.
A industrialização foi o segundo legado dos paulistas ao País. O primeiro, como todos sabem, foi a triplicação do território nacional, em consequência da frenética busca dos metais preciosos, realizada ao longo de dois séculos pelos bandeirantes. O ciclo do café sucedeu ao do ouro e formou o capital necessário para bancar o processo industrial.
Desde o fim da década de 70, todavia, a América Latina entrou em ritmo menor de industrialização, em razão da concorrência exercida por outras regiões, principalmente o Sudeste asiático, e da retração dos investimentos internacionais. O espaço criado pela recessão foi imediatamente ocupado pelo crime organizado e pelo narcotráfico.
O Brasil, como todas as demais nações da América Latina, também foi atingido por esse processo. O Rio de Janeiro, berço da primeira onda de industrialização, anterior à de São Paulo, transformou-se nas décadas de 80 e 90 no quartel general do crime organizado e dos diversos cartéis que atuam no narcotráfico e na lavagem do dinheiro. A expansão para São Paulo ocorreu de maneira quase imperceptível.
Daí decorre a gravidade da tendência de aumento da criminalidade em São Paulo. Em algumas regiões que mais perderam indústrias ao longo do Plano Real, em razão do câmbio sobrevalorizado, como o ABCD, Região Metropolitana de São Paulo, por exemplo, o crime organizado atingiu nível de organização similar ao do Rio de Janeiro. Um exemplo disso foi os comerciantes daquela região terem sido obrigados a fechar seus estabelecimentos por causa da morte de um dos líderes locais do crime organizado.
Portanto, a questão de se deter o avanço da criminalidade organizada ou espontânea em São Paulo interessa ao País inteiro e por extensão a toda a América Latina. É preciso que o governo do Estado e a União, com a ajuda de entidades e organismos internacionais, identifiquem claramente as causas do avanço da criminalidade e tomem medidas articuladas que tragam resultados palpáveis no curto, médio e longo prazo. O Plano Nacional de Segurança, lançado em junho último com essa finalidade, é pífio e ingênuo.
Se nada for feito, em dois ou três anos, o fluxo de investimentos estrangeiros diretos, atraídos principalmente para São Paulo, e daqui redirecionados para outras regiões do País e parceiros do Mercosul, será drasticamente reduzido. O Risco Brasil (já alto em função do custo de produção, da corrupção e da imponderabilidade das relações entre Executivo, Legislativo e Judiciário) ficará insuportável.
- MIGUEL IGNATIOS é presidente da Associação dos Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (ADVB) e da Fundação Brasileira de Marketing (FBM)
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