O desabamento de parte do edifício Palace 2, no Rio, representou o ato final de uma ocorrência que teve muitos responsáveis (ou irresponsáveis). Não foi um acidente, ocorrido devido a uma série de fatores imponderáveis. Trata-se, na verdade, de verdadeiro crime, o que se poderia chamar mesmo de ‘crime continuado’ - começou pelo projeto, continuou com sua execução, passou pela falta de atenção das autoridades competentes (entre outros a Prefeitura do Rio), e incluiu ainda entidades financeiras federais, que garantiram financiamentos a uma empresa em precária situação. O resultado final está aí: o prédio implodido, levando ao chão a esperança de centenas de pessoas, a ameaça real sobre os outros edifícios do condomínio, a dor pela morte dos que ficaram soterrados e a incerta luta dos sobreviventes que pagaram (e ainda devem) e agora não têm onde morar, não contam com o patrimônio que pensavam estar construindo e vão lutar contra forças poderosas, a começar pelo dono da construtora Sersan, Sérgio Naya. Ele, além de tudo, é deputado federal e, portanto, tem imunidade parlamentar.
Talvez este seja o momento de se começar a discutir a imunidade, que Naya afirma ser um direito constitucional, mas que não deveria ser sinônimo de impunidade. Este, porém, é só um dos pontos desta grande questão posta agora a todos os brasileiros, pois o crime da Sersan não é um fato isolado. A diferença que se pode apontar, por exemplo, entre a Sersan e a Encol é que a primeira construiu (embora se perceba que levantou uma verdadeira ratoeira) e a outra ficou com o dinheiro de milhares e os deixou na mão. Mas uma como outra, e tantas mais que fazem isto, são responsáveis por um dos mais graves crimes que se possa cometer contra o ser humano: elas matam a esperança que, dizem, é a última a morrer.
Um dos maiores anseios do ser humano é o de ter sua própria casa (ou, o que é o mesmo, nas circunstâncias, um apartamento). Não é, como a imunidade parlamentar, um direito constitucional, mas um sonho efetivo. Nos últimos anos, apesar de muitos contratempos, elevado número de brasileiros conseguiu realizar este sonho. Todavia, ainda é grande o déficit, se contam aos milhões os que desejam ter um teto próprio, ainda que a custa de anos de prestações. E aqueles que ajudam a realizar o sonho, como construtoras e empreiteiras, fazem um trabalho de grande mérito. O que causa repugnância, porém, é ver que existem ainda muitos aproveitadores, verdadeiros criminosos, que usam este anseio do homem comum para ganhar fortunas e enganá-los. Não há mal em ganhar dinheiro realizando o sonho dos outros, mas é, sem dúvida, criminoso, destruí-lo e matar a esperança.
Isto não poderia estar acontecendo numa sociedade civilizada em que o cidadão fosse efetivamente respeitado. E não ocorreria se houvesse real preocupação dos responsáveis, aí incluídos os governantes e os dirigentes de empresas oficiais de crédito, que irresponsável e criminosamente, cedem empréstimos fáceis aos peculatários da construção, ajudando a enganar o povo e a roubar-lhe o pouco que consegue amealhar para conquistar um teto próprio. Empresas como a Sersan ou a Encol deveriam ter sido, há muito, fechadas e responsabilizadas por seus abusos. Mas não. O que acontece é diferente. Uma empresa que tem como dirigente um deputado federal, com imunidades, tem facilidades para conseguir financiamentos. E condições tranquilas de sair-se bem, mesmo ante o crime que foi cometido contra os compradores do Palace. Esta impunidade é que faz o brasileiro sentir-se ainda mais inseguro.

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