A Federação da Agricultura do Estado do Paraná (Faep) denunciou em fevereiro que continuava impune a devastação de floresta nativa na região Sudoeste e Sul do Estado. Ainda segundo a federação, os responsáveis pelo crime ambiental seriam sem-terra e assentados. Para o superintendente do Incra no Paraná, Celso Lisboa de Lacerda, a denúncia não é verdadeira. Os criminosos, segundo ele, são quadrilhas de ladrões de madeira. Leia a entrevista de Lacerda à FOLHA.

Por que ninguém pune os sem-terra pela devastação. Ou o Incra não confirma a ampla derrubada de árvores?
Não. Essa área sofreu assédios de ladrões de madeira, verdadeiras quadrilhas que agem em todo Sudoeste. O primeiro caso foi aquele de Rio Bonito do Iguaçu. O roubo era de reflorestamento, de madeira plantada. Nós denunciamos à Polícia Federal (PF), que desencadeou uma investigação em conjunto com a Polícia Civil e culminou numa operação que prendeu um vereador e um madeireiro. Isso não é sem-terra, são ladrões de fora que operam em verdadeiras quadrilhas. O segundo caso foi de roubo de madeira em Quedas do Iguaçu. Denunciamos da mesma forma à PF. Não foi denunciado ao Instituto Ambiental do Paraná (IAP) porque não se caracteriza crime ambiental. É roubo de madeira plantada. Não tem assentado ou sem-terra envolvido nisso. Segundo a PF, são empresários de fora do município.

Essa área de Quedas do Iguaçu teria perdido 40% dos pinheiros até a contratação de seguranças pelo Incra. Isso ocorreu?
Não. Nós temos um laudo do IAP, do ano passado, que comprova que essa área não teve nenhum dano ambiental até agora. A área ambiental desse assentamento, hoje chamado Celso Furtado, está preservada. O roubo foi de madeira plantada e nós não mensuramos ainda o prejuízo. Mas, de maneira alguma ele chega a 40%. O objetivo de ter contratado seguranças não foi preservar a floresta nativa, e sim o patrimônio de madeira que a gente tem ali e que foi indenizado com dinheiro público. Talvez a Faep tenha confundido roubo de reflorestamento com devastação ambiental, porque tudo tem madeira.

Quais outros pontos de roubo de madeira no Paraná?
Nós fizemos uma denúncia recente que foi investigada pela PF, já foi apurada e tem processos em juízo, de um caso em Teixeira Soares, num assentamento, que também foi roubo de reflorestamento. Eram pessoas de fora roubando reflorestamento do assentamento.

Há algum caso em que foi comprovada a autoria do roubo?
Lá em Rio Bonito do Iguaçu, todas as pessoas que foram indiciadas não eram pessoas que estavam no acampamento. Em Teixeira Soares havia alguns assentados envolvidos no roubo e já foi rompido o contrato com eles.

Por que há, então, essa preferência por madeira plantada?
A madeira plantada, dependendo do estágio, tem valor comercial maior do que a nativa. Até porque as nossas florestas já não têm aquela quantidade de madeira nobre que existia originalmente. Esse roubo que está acontecendo em Quedas aparece muito porque é uma coisa pública. Mas, devastação ambiental no Sudoeste com certeza tem em todos os municípios e ninguém comenta nada. Já quando trata-se de reforma agrária isso aflora. Em 2003, fizemos um levantamento e, em 50% das fazendas que nós vistoriamos, os proprietários cometiam crime ambiental. Aqui no litoral, em Guaraqueçaba, um proprietário chegou a desviar um rio dentro da floresta. É por isso que eu digo: ''Tem sem-terra que faz isso? Tem. Mas não é prerrogativa de sem-terra, não dá para generalizar.''

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