Crianças querem resposta
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 24 de julho de 1997
Márcia Helena Carvalho Lopes 
É inconcebível o fato registrado pela foto de lª página deste jornal no dia 18 de julho próximo passado. Crianças a partir de 8 anos, em posição de revista policial, viradas de costas com as mãos na parede, como se pudessem representar perigo e violência aos conselheiros tutelares e a polícia, esses que em nome da lei devem preservar o direito e garantir proteção a crianças e adolescentes em situação de risco pessoal e social.
Será que num momento como esse, não seria mais adequado utilizar um tipo de pedagogia que criasse nelas a esperança de poder realizar o que buscam e necessitam: atenção, carinho, respeito, os pais trabalhando, uma escola agradável, lazer, esporte, novos vínculos, recuperação da família e garantia da vida?
Em contraste, na mesma página do jornal, aparecem crianças, ditas energizadas, participando das colônias de férias da cidade, onde aprendem e divertem-se. Certamente para elas não se pede arrastão, porque aí, os direitos e a proteção preconizados no ECA são cumpridos, seja pela família, estado ou sociedade (art. 4º).
A realidade de milhões de crianças neste país é uma seara complexa, inerente a ordem social estabelecida, portanto, impossível de ser pensada como uma questão a ser solucionada, por três ou quatro órgãos da área através de medidas isoladas e descontínuas.
Só para relembrar, vivemos num país onde 59% da população é excluída, desta, 86% não chega ao 2º grau. São milhões de crianças em situação de pobreza, 3,5 milhões trabalhando a partir dos 8 anos em jornadas de até 12 horas, exploração sexual aos 10 anos, busca desenfreada da rua e das drogas como alternativa.
Nossa cidade também tem expressado essa realidade. Nas ruas e mocós, lembro-me das crianças e adolescentes dizendo assim: Pode me levar pra onde quiser, mas pra casa não volto; Você já morou num barraco de favela?; Teu pai já bateu na sua mãe, ele bebe, também?; Você tem dinheiro pra comprar doce nessa padaria aí, né? (Holandesa); Sua filha tem tênis comprado, né?; Quero comer queijo e canjica; Queremos ir na exposição e no parque.; Quero um som.; Dá uma volta de carro com a gente, tia?..... E isso tocava fundo. São punhaladas diárias para quem convive, vê e ouve essas vozes.
E querem respostas. Alguns resistem mais, até anos ou até o limite da sobrevivência. Outros rebelam-se, desabafam, xingam, ameaçam e agridem mesmo. Querem resposta. Por isso, antes de saber o que fazer, é preciso responder para quem queremos fazer e dirigir nossas ações. Se for para acalmar os ânimos e responder às pressões de segmentos da comunidade, que vêem seus interesses ameaçados e não assimilam o ônus da exclusão, aí é mais fácil. Se, por outro lado, o objetivo é atender as crianças, garantir vida digna e os demais direitos constitucionais previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente, aí os desafios são necessariamente outros, mas, sem dúvida, há solução. Senão aquela de longo prazo, embora definitiva, que toca as estruturas e garante igualdade e justiça social a todos os cidadãos, é possível, em Londrina, executar a Política de Atenção à Criança e ao Adolescente, contida no Plano Municipal de Assistência Social, aprovado pelos conselhos municipais de Assistência e de Direitos da criança e adolescente. Tal Política, em grande parte já implementada, necessita de continuidade e aperfeiçoamento, ampliação dos serviços, investimentos, sobretudo, uma ação efetiva do governo do Estado, além da articulação entre os órgãos afins, da permanente capacitação e motivação da equipe de execução e da mobilização e organização da comunidade em geral, inclusive dos nossos representantes, para cobrar e exigir dos governos, estadual e federal, o cumprimento de suas obrigações.
Arrastões, nem de um lado, nem de outro! Não é disso que a cidade e as crianças precisam.


