'Crianças estão perdendo a referência'
PUBLICAÇÃO
sábado, 23 de abril de 2011
Paula Costa Bonini <br> Reportagem Local 
O massacre na Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, que resultou na morte de 12 estudantes em 7 de abril, deixou o País perplexo. Não faltam especulações na tentativa de explicar o que motivou o ataque do atirador Wellington Menezes de Oliveira a abrir fogo contra crianças inocentes.
Para o professor universitário Carlos Henrique Gorges Vici, de Londrina, que já lecionou em vários níveis da educação em instituições da região, a tragédia deve servir como um despertar para pais e educadores. Mais do que nunca chegou a hora de refletir sobre o cidadão que está sendo moldado nos dias de hoje, cobra ele.
O maior problema, de acordo com o educador, é que as crianças de hoje estão cada vez mais individualizadas. Isso acontece porque pais e professores não se preocupam com o emocional dos seus filhos e alunos. Querem apenas transmitir uma carga expressiva de conteúdos e obrigações, considera.
A consequência disso, segundo ele, é a formação de uma geração de cidadãos alienados, analfabetos politicamente e fáceis de serem governados. O resultado, ressalta Vici, é que as crianças estão ficando sem referência. Percebo que os filhos estão sendo esquecidos. Os pais precisam aprender a qualificar o tempo, antes que seja tarde demais, alerta.
Qual lição os educadores podem tirar de tragédias como o massacre de 12 estudantes na escola de Realengo, no Rio de Janeiro?
Este é o momento de amadurecer a nossa forma de educar, amadurecer nossa comunidade e nosso entender diante da vida. É preciso combater a causa dos problemas e não apenas as consequências. O uso da internet, por exemplo, é um perigo para a família. Cabe aos adultos orientar e gerir a forma com que o conhecimento entra em nossas residências e também nas escolas. Temos que ensinar nossas crianças e jovens a valorizar a vida.
Penso que chegou a hora de pausar, colocar os livros, calculadoras, leis e projetos nas mesas e refletir sobre o cidadão que está sendo moldado pelos processos de ensino aprendizagem. Esse papel é de toda a sociedade.
O senhor afirma que hoje as crianças são pequenos executivos e não aproveitam a infância como deveriam. Por que isso ocorre e qual a consequência disso para a formação delas?
Acredito que a educação avançou em muitos quesitos, mas ainda há pontos que devem ser revistos. Hoje crianças de 5 anos têm a obrigação da alfabetização. A família fica ansiosa para que a criança comece a ler e escrever o quanto antes. Estipula uma série de tarefas e responsabilidades aos filhos, que acabam tendo pouco tempo para simplesmente curtir a infância.
As crianças se tornaram pequenos executivos. Têm horário para a natação, piano, inglês, tarefa escolar etc. Passam a maior parte do tempo envolvidas com as obrigações diárias e na hora de brincar vão para frente do computador e do videogame. Os pais contribuem na formação de crianças cada vez mais individualizadas. Os professores, por sua vez, estão preocupados em transmitir a grande carga de conteúdo. Muitas vezes não pensam no lado emocional.
De que forma os pais podem reverter esse panorama?
O tempo está cada vez mais escasso para todo mundo. As pessoas precisam aprender a qualificar o tempo. Os pais, por exemplo, em vez de comprar um jogo novo para o filho, deveriam dedicar um tempo a ele, propor brincadeiras, sair para andar de bicicleta, soltar pipa. Percebo que os filhos estão sendo esquecidos. É mais fácil dar um jogo e deixar a criança brincando sozinha do que dar uns minutos de atenção. As crianças estão ficando sem referência. Não podemos esquecer que essa criança vai crescer. Nenhuma grande árvore cresce na sombra de outra. Os pais devem enxergar o professor como alguém que está caminhando ao seu lado, lutando pela mesma causa.
Qual o papel da escola nesse contexto?
As escolas deveriam estimular momentos em que os jovens possam mostrar suas qualidades. Os professores podem incentivar que os alunos compartilhem seus pré-conceitos em sala de aula, para conhecer o que eles trazem de casa, as experiências já vividas. É preciso conhecer o aluno, as dificuldades e habilidades de cada um. Há crianças que apresentam dificuldade para assimilar os conteúdos, mas são excelentes atletas. É importante conhecer e educar para as habilidades, sem deixar de trabalhar os conceitos essenciais das disciplinas.
Nossas crianças não devem ser 100% em tudo, mas precisam ser resilientes. Os problemas sempre vão aparecer, seja na alfabetização, seja no vestibular ou na vida profissional. Não devemos ocultar os problemas, mas orientar os jovens para que escolham o melhor caminho e, se necessário, sermos parceiros na busca de uma solução para os desafios.
Quais consequências o modelo atual de educação traz?
Estamos formando adultos alienados, analfabetos politicamente e fáceis de serem governados. É importante ressaltar que as pessoas não podem esperar que as mudanças venham de cima, esperando providências do poder público. Cada um tem que fazer a sua parte, não necessariamente como pai ou professor, mas como cidadão. Cada pessoa tem que modificar primeiramente a sua própria vida, para então melhorar a vida da sua família e poder atuar na comunidade.
É preciso educar para acender uma luz e não para encher um balde. Pais e professores não devem passar conteúdos até o balde transbordar e não entrar mais nada. Têm que produzir luz, que é algo contínuo e capaz de iluminar lugares novos.


