CRIANÇA SEGURA - O perigo está dentro de casa
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009
Herika Fondazzi<br>Reportagem Local 
Segundo o Ministério da Saúde, cerca de 6 mil crianças morrem e quase 140 mil são hospitalizadas anualmente no Brasil em decorrência de acidentes domésticos. Dentre as vítimas de queimaduras internadas nos hospitais do país, 27% têm menos de nove anos e, em 91% dos casos, as crianças se machucaram dentro de casa.
Alessandra Françóia, coordenadora para formação de mobilizadores da ONG Criança Segura, de âmbito nacional, falou à FOLHA sobre os motivos para os lares serem tão perigosos e como os pais podem mudar essa realidade.
A maioria desses acidentes acontecem em casa. Como eles ocorrem?
Normalmente são situações dentro da cozinha. Segundo os médicos a queimadura que não oferece grandes consequências normalmente acontece por eletricidade ou uso de álcool. Já as hospitalizações e queimaduras com sequelas ocorrem por líquidos quentes dentro da cozinha. Normalmente porque um adulto está fazendo comida e a criança tem acesso à cozinha, ou ela puxa a toalha da mesa e algum líquido cai sobre ela, ou a criança está no colo de um adulto que está tomando bebida quente e derruba.
Que outros tipos de acidentes são comuns entre as crianças?
As intoxicações e o trânsito, que é a principal causa de morte. A primeira em casos de hospitalizações são as quedas, em segundo as queimaduras e em terceiro os atropelamentos.
O trânsito continua sendo um inimigo das crianças por causa da negligência?
O principal risco é quando a criança é pedestre porque ela não tem habilidade para compreender o trânsito e nem desenvolvimento físico, motor e emocional para andar na rua sozinha antes dos dez anos, além de ser menor e mais frágil. Outro problema é que as pessoas ainda não usam os equipamentos de segurança. A cadeirinha bem instalada pode evitar a morte em 71% dos casos. Só depois dos dez anos é possível que a criança fique apenas com o cinto de segurança.
Por que tantos acidentes acontecem em casa, exatamente o lugar onde se imagina que a criança esteja segura?
Exatamente porque existe uma falsa sensação de segurança pelo fato de a criança estar em casa. Geralmente isso faz as pessoas relaxarem mais porque acham que o ambiente doméstico não oferece risco. Também temos a cultura de que coisas ruins nunca acontecem com a gente e, se acontecem, são uma fatalidade. Mas sabemos que 90% dos acidentes em casa poderiam ser evitados.
De qual maneira é possível garantir a segurança das crianças em casa?
Transformando o ambiente em duas maneiras: eliminando o risco ou colocando um obstáculo para a exposição da criança ao perigo. Por exemplo, podemos eliminar um risco de queimadura não tendo álcool em casa. Não podemos eliminar o líquido quente, mas podemos colocar um portão na cozinha para evitar que a criança acessa o ambiente, principalmente no momento em que alguém estiver fazendo a comida. Também podemos evitar colocar toalhas nas mesas. São atitudes simples, mas que precisam acontecer.
Até qual idade a criança precisa ter esses cuidados mais rigorosos?
Cada faixa etária tem a sua característica. De um a quatro anos, por exemplo, as principais causas de morte são afogamentos e queimaduras. É muito importante que nessa idade a criança não tenha acesso à cozinha, que tomadas e fios elétricos fiquem protegidos e que objetos que produzem fogo sejam mantidos fora de alcance.
Os afogamentos também acontecem em casa?
Eles acontecem tanto em casa quanto em ambientes de lazer. Até os quatro anos o problema é que a cabeça da criança é mais pesada que o tronco. Quando ela se inclina para brincar com a água, ela se vira e não consegue voltar. Os acidentes acontecem com baldes de água, vasos sanitários. E também temos crianças pequenas que vão para lagos e caem nas piscinas das próprias casas. A observação é a melhor maneira de evitar acidentes, mas ela não pode vir sozinha. É preciso observar a criança e também adaptar a casa e educar, explicando a cultura preventiva e os cuidados.
Por natureza as crianças são curiosas e essa característica é importante para o desenvolvimento delas. Como cuidar sem impedir o crescimento dos filhos?
Existe uma confusão entre cuidado e superproteção. O necessário é fazer essas adaptações e assim tudo acontece de maneira leve. Não precisa haver uma neurose, mas uma atitude de cuidado. Você não precisa proibir seu filhos de pegar um objeto se você tirá-lo de perto da criança e deixar apenas aqueles que são seguros e adequados. É necessário observar a rotina da criança, retirar os riscos de acordo com os hábitos de cada fase e explicar os motivos.
Mas existem algumas brincadeiras que são naturalmente perigosas. Devemos proibí-las?
Não, mas podemos ensinar a criança a andar de bicicleta em um lugar seguro, subir em objetos com segurança. As quedas de árvores são a principal causa de lesões graves. E as crianças sentem necessidade de escalar, faz parte do desenvolvimento delas. Uma solução para isso são aqueles brinquedos trepa-trepa.


