Resultados preliminares do censo 2000 confirmam a nova conformação religiosa brasileira. Após cinco séculos de dominação, o catolicismo perdeu sua hegemonia e passa a dividir efetivamente a esfera religiosa. Os dados do IBGE indicam que entre os 170 milhões de brasileiros 26 milhões se declaram evangélicos, representando 15,4% da população. No Paraná esta presença é um pouco maior: 17,9%. Diariamente, principalmente nos centros urbanos e nas camadas mais pobres, mais e mais pessoas adotam uma nova religião.
A novidade que o crescimento evangélico nos traz é a vivência da pluralização religiosa. Não há mais obrigatoriedade em ser católico. As pessoas tornaram-se livres para seguir uma religião ou nenhuma. Os dados do censo também indicam o crescimento das pessoas que se definem como sem religião. Hoje há real possibilidade de opção no que se refere a filiação religiosa, sendo que no passado a única variação possível era a dupla pertença (catolicismo e espiritismo).
Em um ano de eleições gerais candidatos de variadas cores e matizes buscam o apoio das lideranças evangélicas, grupo que por sua organicidade e tamanho possui importante papel na estratégia eleitoral. Enquanto Garotinho catapulta sua candidatura entre estes, Serra recebe apoio de parte da Assembléia de Deus e Lula flerta com o PL-Igreja Universal.
Na esfera estadual resta a dúvida de como o PT pretende manejar a tensão que representa para a massa de evangélicos a possibilidade de voto no Padre Roque. Em Londrina, apesar da forte vinculação com setores da Igreja Católica, Nedson Micheleti obteve apoio dos evangélicos, porém o peso de um clérigo ser o próprio candidato deve ser importante preocupação da coordenação de campanha e da equipe de marketing petista.
É importante que outros grupos religiosos, partidos e setores da sociedade civil organizada que estejam preocupados com um país mais justo e menos desigual identifiquem setores da massa evangélica como possíveis parceiros, adotando postura que viabilize o diálogo com esses emergentes atores do campo social brasileiro.
Da mesma forma que os evangélicos são apontados por analistas como opção de refúgio para a violência urbana, espaço de reabilitação para encarcerados ou meio de enfrentamento para o machismo, parece-nos que as experiências de associativismo efetivadas entre os mais pobres e o recente ‘‘gosto pela política’’ deste grupo poderão auxiliar na construção de uma sociedade mais participativa.
Na história, as religiões já desempenharam diferentes papéis, não havendo uma fatalidade histórica que as ligue necessariamente ao conservadorismo e ao fisiologismo. A posição que será adotada ainda está por ser escrita. Existem boas iniciativas e espaços para que pessoas e grupos evangélicos adotem um caminho progressista que defenda os excluídos e miseráveis, a grande massa de nosso País e uma presença constante em seus templos e cultos, ingrediente fundamental para pensarmos e discutirmos o necessário processo de consolidação democrática em direção a uma sociedade mais igualitária e justa em nosso Brasil.
ALEXANDRE BRASIL FONSECA é membro do Movimento Evangélico Progressista em Londrina e professor do Departamento de Ciências Sociais da UEL

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