O levantamento divulgado pelo IBGE sobre o aumento do PIB do terceiro trimestre do ano, representando o maior aquecimento desde 1980, não provoca, como no passado, aquela explosão de euforia, comum ao tempo do ‘milagre’. Hoje, existe visão mais ampla sobre a economia e os desdobramentos decorrentes de aumentos repentinos no volume da atividade. Entretanto, é imperioso observar que o aumento agora registrado também é diferente do que se tinha nos anos 70, assim como a realidade brasileira é outra e o próprio enfoque da atividade econômica é bem diverso.
É fora de dúvida que o País precisa deste aquecimento. O período de retração, muito longo, deixou fundas e duras consequências. A retomada do crescimento é necessidade fundamental até para que haja melhor distribuição de renda e, principalmente, para que as camadas ainda marginalizadas da sociedade possam ver modificado o quadro de desesperança em que muitos ainda vivem. Naturalmente persiste, e tem validade, a ponderação sobre a necessidade de se manter bem equilibrado o mecanismo econômico para evitar que um aquecimento inesperado tenha efeitos negativos sobre a política de estabilização.
É certo, porém, que existem hoje condições para que este dado, que é sem dúvida positivo, não resulte em consequências danosas. Trata-se de perceber que há meios para não só manter este crescimento como fazer com que seus efeitos sejam apenas favoráveis à população. O eventual aumento na demanda interna, por exemplo, pressionado por melhoria na condição econômica de parte da coletividade, só produzirá efeitos negativos se não houver adequado acompanhamento para as necessidades gerais. O que o Brasil precisa, no caso, é crescer mais, produzir mais, seja para atender a uma demanda crescente do mercado interno como para propiciar melhores condições a quem continua marginalizado.
Os números que o IBGE apresenta agora são importantes quando colocados em comparação com dados do passado. Evidenciam crescimento real, mas não levam em conta a situação mais ampla de um país que tem potencial de ir muito além. O Brasil pode produzir muito mais, em todos os setores. Na verdade, a produção tem sido calibrada mais pela capacidade do consumidor, que ainda é reduzida, do que pela potencialidade nacional. Os brasileiros podem consumir mais, desde que tenham condições para atender suas necessidades. E há também o enorme mercado externo a ser conquistado. A participação brasileira no comércio mundial continua a ser ínfima em comparação com outros países.
A primeira investida brasileira sobre o mercado externo, ocorrida nos anos 60, tinha em mente justamente a necessidade de aumentar a produção num momento em que o consumo interno era baixo. Era uma alternativa, que até se revelou válida na ocasião. Hoje, a situação é diferente, o próprio mercado mundial se modificou. O Brasil também mudou, de tal modo que não se encara o déficit na balança comercial como problema tão grave, a partir da análise dos próprios itens da pauta e enquanto a diferença não atingir proporções insuportáveis. E o caso é este.
O aquecimento da economia, detectado pelo IBGE, representa sem dúvida fato positivo, não necessitando qualquer tipo de intervenção oficial. Só o que se precisa é que haja condições para persistir o crescimento, inclusive com trabalho destinado a transformar esta situação em benefícios para número cada vez maior de brasileiros. Isto é possível e desejável.

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