Cresceremos mais ainda. Basta querer
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de fevereiro de 1997
Rubens Pavan 
O Brasil está realizando um esforço formidável para vencer as deficiências históricas e o atraso que emperram o seu desenvolvimento social, científico e econômico. É natural que no meio deste processo gigantesco de transformações surjam dúvidas a respeito do futuro reservado ao País, e até mesmo se estabeleça uma oposição frontal e nítida dos setores que não concordam com tais mudanças. Creio que elas são inevitáveis e imprescindíveis. Trabalhar para que essas mudanças aconteçam respeitando a cidadania é um dever inteligente de quem acredita num País fortalecido, com a Educação, a Saúde e a Ciência mais ao alcance de todos .
Do ponto de vista da mídia a mudança que mais repercute é a que envolve o setor das telecomunicações, um mercado mundial poderoso, não só pelo grande volume de negócios que representa, mas porque passou a gerar tecnologia de ponta voltada ao cotidiano do cidadão. A telefonia fundiu-se com a informática, as comunicações e o setor de entretenimento por meio da informação multimídia, criando novos serviços e possibilidades tecnológicas. As companhias telefônicas ganharam o papel de orientar esta evolução, e, se por um lado, estas empresas são cada vez mais indispensáveis à sociedade da informação, por outro viraram um excelente investimento que hoje é alvo de acirradas disputas entre as corporações. O faturamento global do setor ultrapassará US$ l,2 trilhão no ano 2.000.
O Brasil é um mercado emergente, o que na linguagem dos grandes investidores significa que acumula um potencial de inúmeras possibilidades. O Brasil parece consciente do seu papel, como mostra a decisão de liberar gradualmente o monopólio das telecomunicações, num acordo firmado recentemente com a Organização Mundial do Comércio, sacramentando um esforço interno de modernização que também envolve a Sercomtel e operadoras similares do País.
Marchas e contramarchas, no entanto, amarram as telecomunicações do Brasil a infindáveis ações judiciais e liminares, que paralisam o mercado e impedem novos investimentos. É claro que muitas destas ações são legítimas e refletem uma preocupação que exige esclarecimentos corretos. Mas é fácil perceber também que a Justiça, muitas vezes, é convocada a abrir um processo moroso e desgastante, em função de iniciativas que sugerem um interesse político na questão, coorporativista e até meramente pessoal. O Ministério das Comunicações, por exemplo, está na expectativa de uma decisão judicial que pode interromper bruscamente a privatização nacional da telefonia celular da Banda B.
Em Londrina, uma ação popular sem consistência impede a Sercomtel de vender ações e distribuir dividendos, além de questionar aleatoriamente a transformação da velha autarquia em S.A. A Sercomtel avaliou ponderadamente os argumentos da ação, considerou-os extremamente precários, e encaminhou a sua defesa ao Fórum. A população londrinense tem um carinho enorme pela Sercomtel e acompanha com atenção o desenrolar deste processo. A Sercomtel é uma empresa que deu certo, tem uma reputação invejada pelas outras operadoras, é citada como modelo pelos mais importantes veículos de comunicação e, nos últimos anos, conquistou o papel de difundir em primeira mão as mais avançadas tecnologias, como o celular digital, por exemplo.
Na última terça-feira, um grupo de donos de telefones constituiu uma entidade, cujo principal e confuso objeto de ação é reivindicar a propriedade da Sercomtel, com eles tendo direito a uma percentagem do faturamento global da empresa e não apenas sobre o investimento que fizeram na ocasião da compra da linha. É como se um cidadão comprasse um automóvel na revendedora e, portanto, se julgasse dono da fábrica. Diversos juristas consagrados demoliram com facilidade essa tese no passado, mas a nova entidade, além disso, passou a questionar a própria existência da S.A., invocando, curiosamente, a mesma linguagem e os mesmos argumentos da ação que está na Justiça. Reconheço a legitimidade da associação e acho que ela pode ser um excelente veículo de contato com a Sercomtel, mas, infelizmente, tenho razões para pensar que, mais uma vez, motivações de natureza diversa procuram se sobrepor à racionalidade e ao bom-senso.
A maioria da população parece estar melhor esclarecida sobre o assunto. A Sercomtel transformou-se em S.A. porque esta é uma imposição histórica, caso queira sobreviver. O município continua com o controle majoritário da empresa, mas parte de seu capital será aberto a investidores privados que trarão recursos para novos investimentos. Se persistir como autarquia, além de desrespeitar a lei, a Sercomtel ficará restrita ao município de Londrina, cercada inevitavelmente pelas grandes corporações que explorarão o mercado das vizinhanças, minando as possibilidades da empresa até o seu esgotamento final. Como S.A., pode agir externamente, aliar-se a novos parceiros, buscar mercados, crescer, atualizar-se tecnologicamente e destinar aos seus clientes o melhor da modernidade.
A Sercomtel está tão confiante que o equilíbrio prevalecerá, no final da contas, que já se prepara para enfrentar os novos tempos. A empresa busca a qualidade total em seus serviços. Faz uma reengenharia interna para evoluir em seus processos e métodos. Implanta treinamento e especialização compatíveis com a exigência de elevados padrões. A Sercomtel sempre contrariou a imagem de que uma empresa pública é, forçosamente, jurássica e burocratizada em suas atividades, graças à sensibilidade dos prefeitos de Londrina que sempre apostaram num padrão de excelência para a empresa. Os visitantes que sempre recebemos, internacionais, inclusive, elogiam a empresa, e os clientes nos atribuem, em média, uma aprovação de mais de 85%. A melhor qualidade da Sercomtel, no entanto, talvez seja a capacidade crítica de compreender suas próprias limitações. E de pressentir a chegada de uma revolução tecnológica que vai alterar o comportamento de todos.
Se quisermos, um lugar extraordinário estará reservado à Sercomtel no disputado mercado das telecomunicações. Basta apenas afastar, numa atitude amadurecida, a mesquinharia e o egoísmo, individual ou de grupos, e olhar bem para a frente, com vontade corajosa de crescer, de atualizar-se e de desenvolver projetos que melhorem a vida do cidadão e gerem bem-estar para a comunidade.


