Crescer ou crescer - Aldo Rebelo
Aldo Rebelo
Repercutiram intensamente as críticas do ministro da Fazenda Pedro Malan às declarações do ex-ministro das Comunicações Luís Carlos Mendonça de Barros que, em entrevista recente, afirmou ser necessário o governo passar de uma macroeconomia da estabilidade para uma do desenvolvimento. A imprensa logo identificou mais um lance de uma suposta luta visceral no governo FHC, entre partidários e adversários do desenvolvimentismo. Mas será que existe mesmo essa tal divisão?
O governo FHC, até por constituir uma grande frente de centro-direita, abriga inúmeras correntes de pensamento que divergem em torno de questões importantes, como, por exemplo, o câmbio. Enquanto uma ala propugnava há tempos a flexibilização do câmbio, a outra aferrava-se à âncora cambial, que, ao afundar, em janeiro passado, levou junto seu mais ferrenho defensor, o ex-presidente do BC, Gustavo Franco.
Mas, como afirmou o próprio Mendonça de Barros, o PSDB não é e nunca foi desenvolvimentista. Ao contrário, se por desenvolvimentismo se entende uma postura ativa do governo com vistas à promoção do desenvolvimento econômico, com vistas ao bem-estar do povo, o que o governo FHC fez, inclusive com a participação destacada dos chamados desenvolvimentistas, entre eles Mendonça de Barros, foi montar sua coalizão de poder e sua estratégia econômica com base no projeto explícito de virar a página ideológica e econômica do desenvolvimentismo.
Mas não há como fechar os olhos: o País precisa crescer ou crescer. Mesmo depois de anos de uma predatória reestruturação do Estado, pela qual foram privatizados serviços e grandes empresas públicos, é possível implantar políticas de crescimento em benefício do conjunto do povo e não de uma minoria de privilegiados, como os banqueiros. É claro que sem dinheiro para investir e com baixo poder de barganha, o governo reduziu sua capacidade de ditar o desenvolvimento econômico.
Mas isso é, em larga medida, uma escolha política. A verdade é que a Nação brasileira, conduzida por um governo indolente e entreguista, balança à deriva nas ondas da globalização. Não temos um programa de desenvolvimento, baseado num projeto verdadeiramente nacional. Não temos um plano de apoio à indústria - ao contrário, ela está sendo sucateada e destruída pelas importações. Não temos um projeto de exportações que nos faça participar do mercado globalizado com a altivez e o poder de fogo compatíveis com a grandeza do País.
Não deveríamos esquecer que o Brasil foi o único país latino-americano que durante a sua era desenvolvimentista (1950-1980) conseguiu ocupar economicamente seu território, construindo uma infra-estrutura relativamente complexa e integrada de transportes, energia e comunicações, além de se industrializar e manter durante trinta anos a segunda taxa média anual mais alta de crescimento econômico do mundo.
A construção da Nação brasileira, dificultada pelos entraves herdados de uma sociedade de fazendeiros e escravos, sempre esteve associada a projetos públicos. Dois deles serviram de locomotiva para o País: o programa de industrialização do período de Getúlio e o Plano de Metas de Juscelino. Na contramão da história, o governo FHC caminha para transformar o Brasil numa loja de bugigangas importadas que o povo cobiça mas não pode comprar.
- ALDO REBELO é deputado federal do PCdoB de São Paulo





