O brasileiro sai temeroso de casa. Olha para todos os lados, desconfia da sombra na porta, na saída da garagem, na esquina, na parada de ônibus, na estação rodoviária ou no metrô. Vive em taquicardia constante, alerta geral contra a violência, a insegurança, figura nefasta que pode vir de qualquer lado. Armada ou não, bem ou mal vestida, a figura do assaltante, homicida ou sequestrador, que pode surgir a sua frente, inclusive dentro de seu lar.
Não fosse isso, não fossem as grades que aprisionam o cidadão livre em sua casa e aparentemente o protegem dos malfeitores lá fora, há o mundo, a vida de cada um, que exige sua presença e os seus fartos ou parcos recursos.
No seu universo particular, se for menos aquinhoado, a alimentação subiu 60% (se falarmos da média do preço da cesta básica: arroz, feijão, massa e frango...) desde o início do Plano Real. A tarifa de ônibus, em São Paulo, mais de 230%. O aluguel leva-lhe quase seis vezes mais do que em junho de 1994 (535%).
Se ele for da classe média, o adoçante que impede o colesterol, graças a Deus, baixou 25% e a linha telefônica 98%. Que bom. Que nada: a conta das ligações do aparelho telefônico barateado aumentou (''pasmo privatista'') 445% nos últimos oito anos que ''mudaram o Brasil''.
Se tiver criança pequena, o preço médio da fralda descartável caiu 35%. Oba! Porém o pediatra e todas as demais despesas de assistência médica elevaram-se, em média, 222%. A gasolina, de anunciada baixa demagógica recente, amarga 209% a mais na bomba, enquanto que o botijão de gás, necessário à cozinha de todos, aumentou 398%. E, como diria o humorista global: ''E o salário? Ohhh!''
Isto tudo e muito mais. Muito mais camelôs na rua. Muito mais vagas fechadas nas fábricas, já que a produção industrial registra a maior queda desde 1995. Muito mais mendigos e crianças esmolando nos semáforos e esquinas. Muito mais trabalhadores sem contribuir para a previdência, numa economia marginal, sem eira, nem beira.
E não é discurso de catastrofista de plantão: são números incontestáveis revelados pelo IBGE, FIPE e outros organismos que acompanham a situação socioeconômica do País.
É constatação de um cidadão que vê o risco Brasil, não o externo, dos especuladores internacionais, mas o interno, das ruas, crescer a cada instante, a cada momento.
Com o déficit nas contas públicas em alta, com os juros em alta e com o descrédito internacional em alta. E a nossa esperança em baixa.
E ainda vem o professor Cardoso, ''honoris causa'' de universidades mundo afora nos dizer, com proficiência: ''É preciso que as pessoas acreditem mais e não fiquem se lamuriando!''
É verdade!
VILSON ANTONIO ROMERO é diretor da Associação Gaúcha dos Fiscais de Previdência e da Associação Riograndense de Imprensa

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