Crédito sem seguro não é política agrícola
O desafio da agropecuária brasileira nunca foi apenas ampliar o volume de crédito
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de julho de 2026
O desafio da agropecuária brasileira nunca foi apenas ampliar o volume de crédito
Marcelo Janene El-Kadre 
Todos os anos, o lançamento do Plano Safra é apresentado como um marco para o agronegócio brasileiro. Anunciam-se cifras bilionárias, destacam-se percentuais de crescimento e reforça-se a ideia de que o setor está sendo amplamente atendido. Mas quem vive a realidade do campo sabe que números, por si só, não produzem uma única saca de soja, um litro de leite ou uma arroba de carne.
O desafio da agropecuária brasileira nunca foi apenas ampliar o volume de crédito. O verdadeiro desafio é construir uma política agrícola capaz de oferecer previsibilidade ao produtor. E, nesse aspecto, o maior vazio do Plano Safra continua sendo a ausência de uma política robusta de gestão de riscos.
O produtor rural atua em uma verdadeira indústria a céu aberto. Seu planejamento depende de fatores que escapam completamente ao seu controle. Em um cenário de mudanças climáticas, em que secas, enchentes, geadas e ondas de calor deixaram de ser eventos excepcionais, o seguro rural não pode continuar sendo tratado como um programa complementar. Deve ser um dos pilares da política agrícola brasileira.
Sem seguro, o crédito perde grande parte de sua efetividade. Basta uma quebra de safra para comprometer a capacidade de pagamento do produtor. Muitos precisam renegociar dívidas, tornam-se inadimplentes ou perdem acesso a novas linhas de financiamento justamente quando mais necessitam investir para retomar a produção.
Nesse contexto, cresce a dependência de operações junto a cooperativas, revendas e empresas do setor, frequentemente vinculadas à entrega futura da produção. Quando uma nova adversidade climática compromete a safra, o endividamento aumenta, reduz a capacidade de investimento e alimenta um ciclo difícil de romper.
Esse cenário evidencia um equívoco que se repete há décadas: o Brasil continua tratando política agrícola como sinônimo de crédito rural. Não é. Uma política moderna precisa combinar financiamento, gestão de riscos e instrumentos que garantam estabilidade diante das oscilações do clima e do mercado. Crédito é apenas uma das ferramentas. Sem as demais, deixa de impulsionar o desenvolvimento e passa a ampliar a vulnerabilidade de quem produz.
Os impactos dessa fragilidade ultrapassam as porteiras. Quando uma safra é perdida, toda a cadeia produtiva é afetada: cooperativas, agroindústrias, transportadores, fornecedores de insumos, municípios e consumidores. Proteger o produtor é proteger a produção de alimentos, os empregos, a competitividade do agronegócio e a economia brasileira.
A Sociedade Rural do Paraná defende que chegou o momento de o país deixar de discutir apenas o tamanho do Plano Safra e passar a discutir a qualidade da política agrícola. O produtor rural não pede privilégios. Pede previsibilidade para produzir, segurança para investir e instrumentos compatíveis com os riscos que assume ao colocar alimento na mesa dos brasileiros.
O Brasil construiu um dos agronegócios mais eficientes e competitivos do mundo. Agora precisa construir uma política agrícola à altura dessa conquista. Enquanto continuarmos anunciando bilhões em crédito sem oferecer uma política consistente de gestão de riscos, continuaremos transferindo ao produtor uma responsabilidade que deve ser enfrentada por políticas públicas estruturadas.
Fortalecer o seguro rural não é apenas atender a uma demanda do setor. É garantir segurança alimentar, preservar empregos, fortalecer a economia e assegurar que o Brasil continue exercendo sua vocação de produzir alimentos com competitividade e sustentabilidade
Marcelo Janene El-Kadre, presidente da Sociedade Rural do Paraná


