Credibilidade institucional em risco
O alerta da leitora Luciana Lins (Cartas, dia 26/3 - ''Manipulando números'') expressa a preocupação de várias leitores sobre a confiabilidade dos números que desfilam em pesquisas sobre desempenho de órgãos oficiais. Além de Luciana, que é dentista, também contabilistas e administradores de empresas - profissões mais afeitas aos números - já se posicionaram em pelo menos uma oportunidade recente. Será que esses levantamentos estão certos?
Os leitores, não questionam, necessariamente, a honestidade da informação, mas a metodologia, que sempre contabiliza e referenda ufanismos. Em geral, é a aproximação de eleições que enseja um festival de estatísticas invariavelmente apontando para o sucesso da gestão pública. Não se trata de escamotear dados negativos, mais de superdimensionar os números que interessam ao governo.
Citando os números que o ministro Carlos Lupi, do Trabalho, passou para os jornalistas - segundo os quais fevereiro foi o melhor mês da história - a leitora questiona a criação de 205 mil empregos formais. Os números são do Caged e o desejável seria: a) Que tais dados fossem cotejados com outra estatística, a do desemprego, no caso, b) Que fossem esmiuçados, indicando categorias e regionalização da coleta, enfim elucidando bem o fator abrangência da boa performance, c) Que o órgão responsável pelos relatórios, tivesse a preocupação de assumir com altivez a autoria da informação.
Com tais detalhamentos ficaria mais fácil fundamentar os dados e, mais do que isso, conferir-lhes consistência. Sem esse zelo, e uma interpretação mais didática, os dados apenas denotam triunfalismo para recheio de discursos políticos.
A manipulação de dados é algo perigoso. É preferível acreditar que os números estão corretos a perder a confiança em instituições tradicionais, que hoje se prestam a posar de geradoras de dados forjados. Os discursos, qualquer pessoa medianamente inteligente os repele. Mas os números têm a chancela de fundações, universidades ou institutos formadores de opinião. Podem ter sua imagem e eficiência abaladas. Seria bom que ficassem fora da campanha.





