Há uma passagem no pitoresco relato das ‘‘Aventuras do Barão de Munchhausen’’ em que o grande mentiroso conta que conseguiu salvar-se do afogamento levantando-se das águas puxando os próprios cabelos. Esta proeza me vem à lembrança quando leio a declaração de um dos sacerdotes da ‘‘teologia da especulação’’, enclausurado no Banco Central, afirmando que vai demonstrar ao mundo que a economia brasileira pode crescer mesmo com as altas taxas de juros impostas ao setor produtivo.
O eminente teólogo cuida apenas de proteger-se, alertando que vai ser preciso ter paciência, porque os resultados só virão no longo prazo. Uma das características interessantes do atual governo é que ele está sempre pedindo tempo.
Para quem está produzindo, no Brasil - os agricultores, os industriais e os comerciantes - a redução das taxas de juros é uma exigência de curtíssimo prazo, pois se trata da própria sobrevivência. Uma boa empresa brasileira média, com bom cadastro e boa tradição, não consegue recursos a menos de 3% ao mês de juros, o que representa 45% ou 50% ao ano. Com uma taxa de inflação de 7% ou 8% ao ano, a empresa está pagando cerca de 30% de juros reais ao ano, o que inviabiliza qualquer negócio. Não é por outras razões que a oferta de emprego continua caindo, obrigando milhões de trabalhadores a viver na miséria da economia informal. Não é por acaso que a inadimplência alcançou níveis extraordinários, destruindo empresas e estruturas familiares e ameaçando a própria saúde do sistema financeiro.
Os setores mais saudáveis da economia brasileira estão sendo destruídos com a permanência dos níveis de juros no atual patamar. O que surpreende é que, ainda esta semana, pela quarta ou quinta vez o próprio presidente da República se referiu à necessidade de baixar os juros. Nada acontece, porém, nessa direção. Os juros foram reduzidos para os papéis do governo, mas continuam altíssimos para o setor privado.
O governo demonstrou uma enorme capacidade de cuidar da própria sobrevida, criando a expectativa de disputar mais um mandato presidencial. Mobilizou rapidamente a sua maioria parlamentar, aliciou votos nas minorias e fez aprovar a reforma constitucional que deve permitir a reeleição. Por mais que seus propadandistas se esforcem para culpar o Congresso, é cada vez mais evidente que as demais reformas não são aprovadas porque o Executivo não se empenhou o suficiente junto às suas bancadas. Se o presidente dedicasse um décimo do esforço realizado para aprovar a reeleição, já teria obtido a aprovação das reformas da administração, previdenciária e tributária.
É falso, também, o argumento segundo o qual não pode reduzir o déficit público sem as reformas. Há despesas comprimíveis no Executivo que poderiam reduzir o déficit e diminuir as necessidades de seu financiamento, aliviando a pressão sobre os juros. Há o programa de privatizações, que entrou em compasso de espera para não ameaçar eventuais apoios à emenda da reeleição. A ativação do programa geraria recursos para abater a dívida pública, contribuindo também para ativar as pressões sobre os juros.
Finalmente, há o ‘‘cavalo de batalha’’ da sobrevalorização cambial: o descongestionamento do câmbio, com o alargamento das faixas de flutuação, permitiria uma rápida redução das taxas de juros. Com a vantagem adicional de permitir a recuperação indispensável e inadiável do ritmo das exportações, a retomada do crescimento econômico e a redução da miséria do desemprego que vai minando a credibilidade do plano de estabilização. Isso, além do mais, ajudaria a reduzir o déficit público.

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